
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
O ferro é um dos minerais mais importantes do corpo — ele é a peça central da hemoglobina, a proteína que carrega o oxigênio no sangue. Quando falta ferro, o organismo produz menos hemoglobina e você pode desenvolver anemia, com sintomas como cansaço, palidez e falta de ar. A boa notícia é que a alimentação tem um papel enorme na prevenção e no tratamento da falta de ferro.
Mas há um detalhe que muita gente não sabe: não basta comer alimentos ricos em ferro — é preciso comer da forma certa. Alguns hábitos comuns, como tomar café logo após o almoço, podem reduzir a quantidade de ferro que o corpo realmente aproveita.
Neste guia, vou explicar quais são os alimentos ricos em ferro, quanto ferro cada um oferece, e como combinar as refeições para absorver o máximo possível.
Por que o ferro é tão importante?
O ferro participa de funções essenciais, como:
- Transporte de oxigênio: faz parte da hemoglobina (nos glóbulos vermelhos) e da mioglobina (nos músculos).
- Produção de energia: atua dentro das células na geração de energia.
- Imunidade e função cerebral: níveis adequados de ferro ajudam na defesa do organismo e na concentração.
Quando as reservas caem, o primeiro sinal costuma aparecer nos exames: a ferritina baixa, que indica estoques de ferro reduzidos, muitas vezes antes mesmo de a anemia se instalar.
Os dois tipos de ferro dos alimentos: heme e não heme

Existe uma diferença fundamental entre o ferro de origem animal e o de origem vegetal, e entender isso muda tudo:
Ferro heme (origem animal): presente em carnes, aves, peixes e vísceras. É a forma que o corpo absorve com mais facilidade — o aproveitamento pode chegar a 15% a 35%.
Ferro não heme (origem vegetal e alimentos fortificados): presente em feijões, lentilhas, folhas verde-escuras, sementes e cereais fortificados. É absorvido em menor proporção (em torno de 2% a 20%), e essa absorção é fortemente influenciada pelo que você come junto.
Isso não significa que quem é vegetariano ou vegano não consegue manter bons níveis de ferro — significa apenas que precisa dar mais atenção às combinações certas, que veremos adiante.
Alimentos ricos em ferro (valores da tabela TACO)
As tabelas abaixo trazem o teor de ferro por 100 gramas segundo a TACO — Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (NEPA/Unicamp), a principal referência oficial do país. Vale um lembrete importante: a TACO mede o alimento em um preparo específico. Por isso, leguminosas cozidas (que absorvem água no cozimento) mostram menos ferro por 100 g do que suas versões cruas — não porque tenham menos ferro “de verdade”, mas porque 100 g de alimento cozido contêm mais água.
Fontes de origem animal (ferro heme)
| Alimento | Ferro (TACO, por 100 g) |
| Fígado bovino, grelhado | 5,0 mg |
| Sardinha em conserva (óleo) | 3,0 mg |
| Ovo de galinha, inteiro, cozido | 2,1 mg |
| Carne bovina (acém moído, cozido) | 2,0 mg |
Fontes de origem vegetal (ferro não heme)
| Alimento | Ferro (TACO, por 100 g) |
| Castanha de caju, torrada | 5,0 mg |
| Grão-de-bico, cru | 5,0 mg |
| Melado (de cana) | 5,0 mg |
| Aveia, flocos | 4,0 mg |
| Feijão preto, cozido | 1,0 mg |
| Feijão carioca, cozido | 1,0 mg |
| Feijão fradinho, cozido | 1,0 mg |
| Lentilha, cozida | 1,0 mg |
| Ervilha | 1,0 mg |
Dica prática: a castanha de caju e o melado de cana têm teores altos, mas costumam ser consumidos em pequenas porções. Já feijões, lentilha e ervilha entram no prato em quantidades maiores — por isso continuam sendo pilares do ferro no dia a dia, mesmo com valor menor por 100 g.
Sobre folhas verde-escuras: é comum ouvir que espinafre e couve são ” alimentos ricos em ferro”. Eles ajudam na dieta, mas na TACO o teor medido é baixo (o espinafre refogado aparece com valor próximo de zero) e, além disso, o ferro das folhas é do tipo não heme e ainda sofre com os oxalatos — ou seja, é pouco aproveitado. Não conte com as folhas como sua principal fonte de ferro.
O que AJUDA e o que ATRAPALHA a absorção de ferro

O que ATRAPALHA a absorção de ferro
- Café e chá (preto, verde, mate): contêm taninos e polifenóis que se ligam ao ferro. Tomar café ou chá junto ou logo após a refeição mesmo que tenha alimentos ricos em ferro pode reduzir bastante a absorção.
- Cálcio (leite e derivados): grandes quantidades de cálcio competem com o ferro. Evite tomar suplemento de cálcio ou grandes copos de leite na mesma refeição rica em ferro.
- Fitatos: presentes em cereais integrais, farelos e algumas leguminosas. Deixar de molho, fermentar ou germinar grãos ajuda a reduzir esse efeito.
- Oxalatos: presentes em alguns vegetais, como o próprio espinafre. Por isso, mesmo tendo ferro, o espinafre não é a fonte mais eficiente sozinho.
O que AJUDA a absorção de ferro
Por outro lado, alguns aliados aumentam muito o aproveitamento do ferro:
- Vitamina C (o maior aliado): frutas cítricas (laranja, limão, acerola), goiaba, kiwi, morango, tomate e pimentão podem aumentar a absorção do ferro não heme. Um suco de laranja ou algumas gotas de limão sobre o feijão já fazem diferença em especial com alimentos ricos em ferro.
- Combinar ferro animal com vegetal: a presença de carne na refeição melhora a absorção do ferro dos vegetais que estão no mesmo prato.
- Separar o café do almoço: tome o cafezinho 1 a 2 horas depois da refeição principal, não junto.
Exemplo de refeição que aproveita bem o ferro

Um prato de arroz + feijão + carne + salada com tomate e limão, acompanhado de uma fruta cítrica de sobremesa e com o café adiado para o meio da tarde, é uma combinação simples e poderosa para manter o ferro em dia.
Vale a ressalva contrária: comer mais ferro não é sempre melhor. Em quem já tem os estoques cheios, o excesso não traz benefício — e, quando o exame mostra ferritina alta, a causa raramente é a alimentação.
Quando a ingesta de alimentos ricos em ferro não é suficiente
A comida é fundamental, mas nem sempre resolve sozinha. Em situações como sangramentos (menstruação intensa, problemas digestivos), gravidez, doenças que reduzem a absorção intestinal ou reservas já muito baixas, pode ser necessário suplementar ferro — por via oral ou, em alguns casos, endovenosa.
Essa decisão deve ser sempre orientada por um médico, com base nos seus exames. Tomar ferro por conta própria não é recomendado: o excesso também faz mal e pode mascarar outras causas de anemia.
Se você quer entender melhor o que significam seus resultados, veja também nossos artigos sobre ferritina baixa: sintomas, causas e como aumentar e anemia: sintomas, tipos e quando se preocupar.
Perguntas frequentes (FAQ)
Qual é o alimento mais rico em ferro?
Entre os alimentos do dia a dia, o fígado bovino é uma das fontes mais ricas e bem absorvidas de ferro heme (5,0 mg/100 g na TACO). Entre os de origem vegetal, castanha de caju, grão-de-bico, melado de cana e aveia se destacam, embora o ferro vegetal seja absorvido em menor proporção. As leguminosas (feijão, lentilha, ervilha) têm menos ferro por 100 g quando cozidas, mas são muito consumidas e, por isso, importantes fontes no prato brasileiro.
Beber suco de laranja ajuda mesmo a absorver ferro?
Sim. A vitamina C do suco de laranja (e de outras frutas cítricas) aumenta a absorção do ferro não heme, presente nos vegetais. É uma combinação eficaz e fácil de adotar em especial junto de alimentos ricos em ferro.
Posso tomar café depois do almoço?
O ideal é esperar de 1 a 2 horas após a refeição. Os taninos do café e do chá reduzem a absorção do ferro quando consumidos junto com a comida, especialmente se você está tratando anemia ou ferritina baixa.
Só a alimentação resolve a anemia por falta de ferro?
Nem sempre. Em casos de reservas muito baixas ou perdas contínuas de sangue, a dieta ajuda, mas pode não ser suficiente. Nessas situações, é comum a necessidade de suplementação orientada por um médico.
Vegetarianos conseguem manter bons níveis de ferro?
Sim, desde que combinem bem os alimentos — priorizando leguminosas, sementes, folhas e cereais fortificados, sempre acompanhados de fontes de vitamina C e evitando café e chá junto das refeições.
Sobre o autor
Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.
Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.
Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.
CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590
Para acompanhar se a reposição está funcionando, o exame que mais informa não é o ferro sérico. Veja ferro sérico e saturação de transferrina.
Aviso importante
As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.
Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.
Fonte dos valores de ferro: TACO — Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, NEPA/Unicamp (4ª edição). Os teores referem-se ao alimento no preparo indicado e podem variar conforme origem e forma de consumo.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento da falta de ferro e da anemia devem ser feitos por um profissional de saúde, com base em avaliação clínica e exames. Em caso de dúvidas ou sintomas, consulte seu médico.
Reforçar o ferro é essencial no tratamento da anemia ferropriva — veja os sintomas, as causas e como tratar.
Referências
- TACO — Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, 4ª edição. NEPA/Unicamp. Disponível em: https://www.nepa.unicamp.br/publicacoes/tabela-taco-excel/
- National Institutes of Health (NIH), Office of Dietary Supplements. Iron — Fact Sheet for Health Professionals. https://ods.od.nih.gov/factsheets/Iron-HealthProfessional/
- Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO). Anaemia. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/anaemia
- Ministério da Saúde (Biblioteca Virtual em Saúde). Anemia. https://bvsms.saude.gov.br/anemia/
- Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (RBHH/SciELO). Orientação nutricional do paciente com deficiência de ferro. https://www.scielo.br/j/rbhh/a/GbHqm9MC8cFbqdrnNghNCRN/?lang=pt
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Consenso sobre Anemia Ferropriva. https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23172c-Diretrizes-Consenso_sobre_Anemia_Ferropriva.pdf
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: julho;2026 | Acompanhe conteúdos sobre hematologia no Instagram @drhenriquepecegohemato ou saiba mais [sobre o autor] · LinkedIn · X: @henriquepecego.

