
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
Leucemia linfocítica crônica (LLC) é um câncer do sangue que evolui devagar e atinge, sobretudo, adultos mais velhos. Ela é o tipo mais comum de leucemia em adultos no Ocidente e tem uma característica que surpreende muita gente: em boa parte dos casos, ela nem precisa de tratamento logo no início. Nela, a medula óssea produz um tipo de glóbulo branco — o linfócito B — de forma exagerada e lenta. Por isso, muitas pessoas convivem anos com a doença de forma estável, apenas em acompanhamento. Neste guia, você vai entender, de forma simples, o que é a LLC, quais são os sinais de alerta, como ela é diagnosticada e por que, muitas vezes, a melhor conduta é observar. Ele faz parte do nosso guia completo sobre leucemia.
O que é a leucemia linfocítica crônica?
A medula óssea é a fábrica do sangue, onde nascem os glóbulos vermelhos, as plaquetas e os glóbulos brancos. Na leucemia linfocítica crônica, um tipo de glóbulo branco chamado linfócito B passa a se multiplicar de forma descontrolada, mas lenta. Esses linfócitos, além de aumentarem em número, não funcionam direito: eles não defendem bem o corpo contra infecções. Com o tempo, vão se acumulando no sangue, na medula, nos linfonodos (as “ínguas”), no baço e no fígado.
A palavra “crônica” indica justamente que a doença cresce devagar, ao longo de anos. Por isso, muitas pessoas descobrem a LLC por acaso, em um exame de sangue de rotina. Vale conhecer também uma “prima” próxima: quando essas mesmas células se concentram nos linfonodos, e não no sangue, a doença recebe o nome de linfoma linfocítico de pequenas células (LLPC/SLL). São, na prática, a mesma doença vista em lugares diferentes.
Sintomas da leucemia linfocítica crônica: sinais de alerta
Um ponto marca a leucemia linfocítica crônica: na maioria das vezes, ela não dá sintomas no começo. De fato, é comum que o diagnóstico venha de um hemograma pedido por outro motivo, que mostra os linfócitos elevados. Quando os sintomas aparecem, costumam ser discretos. Portanto, vale atenção quando surgirem:
- Ínguas (linfonodos) aumentadas, indolores, no pescoço, nas axilas ou na virilha.
- Cansaço e fraqueza sem explicação.
- Perda de peso e suores noturnos.
- Sensação de barriga cheia ou desconforto no lado esquerdo, pelo aumento do baço.
- Infecções de repetição, porque os glóbulos brancos doentes defendem mal o corpo.
- Anemia, hematomas ou sangramentos fáceis, em fases mais avançadas.
Esses sinais também aparecem em várias situações benignas. No entanto, um hemograma com linfócitos muito elevados (a chamada linfocitose) costuma ser o achado que leva ao diagnóstico.

Como a leucemia linfocítica crônica é diagnosticada
O diagnóstico da leucemia linfocítica crônica une exames simples de sangue a testes mais específicos:
- Hemograma. É quase sempre o ponto de partida: mostra o número de linfócitos muito aumentado. Em geral, mais de 5.000 linfócitos por microlitro já levanta a suspeita.
- Esfregaço de sangue. Ao microscópio, aparecem linfócitos característicos e as chamadas “células borradas – manchas de gumpretch” (smudge cells), típicas da LLC.
- Imunofenotipagem (citometria de fluxo). É o exame que confirma o diagnóstico. Ele identifica os marcadores na superfície das células e prova que se trata de uma LLC de linfócitos B.
- Exames genéticos (FISH e outros). Pesquisam alterações como a deleção 13q (de melhor evolução), a deleção 17p e as mutações do gene TP53 (que mudam a escolha do tratamento), além do estado mutacional do gene IGHV.
Às vezes, o médico também avalia a medula óssea. Contudo, na maioria dos casos, sangue e imunofenotipagem já fecham o diagnóstico.

Antes de se chegar ao diagnóstico de LLC, o achado costuma ser apenas uma contagem elevada no hemograma. Explico o que fazer nesse cenário no guia sobre linfócitos altos e baixos, que inclui a linfocitose B monoclonal — o degrau que existe entre o hemograma normal e a leucemia.
Estadiamento: entendendo os sistemas Rai e Binet
Depois de confirmar a doença, o hematologista define o “estágio”, que ajuda a prever a evolução e a decidir se e quando tratar. Existem dois sistemas:
- Sistema Rai (0 a IV). Vai do estágio 0 (apenas linfócitos altos, baixo risco) até os estágios III e IV (com anemia ou plaquetas baixas, alto risco), passando pelo aumento de linfonodos, baço ou fígado.
- Sistema Binet (A, B e C). Considera quantas áreas de linfonodos estão afetadas e se há anemia ou plaquetas baixas.
Em ambos, quanto mais avançado o estágio, maior a chance de a doença precisar de tratamento.
Tratamento da leucemia linfocítica crônica
Aqui está o que mais surpreende. No tratamento da leucemia linfocítica crônica, nem sempre a melhor conduta é começar remédio. Em pessoas sem sintomas e com doença estável, a orientação costuma ser a observação vigilante (também chamada de “conduta expectante” ou watch and wait): acompanhamento com consultas e exames periódicos, sem medicação. Isso não é abandono — é a estratégia mais segura quando o tratamento traria mais riscos do que benefícios.
Já quando surgem sintomas ou sinais de progressão, entram as opções modernas:
- Terapias-alvo em comprimidos. São a base do tratamento atual: os inibidores de BTK (como ibrutinibe, acalabrutinibe e zanubrutinibe) e o inibidor de BCL-2 (venetoclax), que atacam mecanismos específicos das células doentes.
- Anticorpos monoclonais. Medicamentos anti-CD20, como obinutuzumabe e rituximabe, muitas vezes combinados com a terapia-alvo.
- Quimioimunoterapia. Ainda é uma opção possível em casos selecionados, embora as terapias-alvo tenham se tornado a preferência.
- Transplante de medula óssea. Hoje é raro, reservado a casos de alto risco que não respondem bem aos tratamentos-alvo.
A presença de deleção 17p ou mutação de TP53 orienta a preferência pelas terapias-alvo. Com o tratamento certo, a maioria das pessoas mantém a LLC sob controle por muitos anos.

Prognóstico: o que esperar
A LLC é, em geral, uma doença de curso lento e bem controlável. Muitos pacientes vivem anos, ou décadas, com boa qualidade de vida — parte deles nunca precisa de tratamento. Segundo as diretrizes atuais, o prognóstico depende do estágio, das alterações genéticas e da resposta ao tratamento. Falar em “cura” nem sempre se aplica, mas o controle a longo prazo é a regra, e as terapias-alvo ampliaram muito esse horizonte. Cada caso é único, e o hematologista é quem define a melhor estratégia e acompanha a evolução.
Quando procurar um hematologista
Como a LLC costuma ser silenciosa, o hemograma tem papel central. Procure avaliação quando houver:
- um hemograma com linfócitos persistentemente elevados (linfocitose), mesmo sem sintomas;
- ínguas aumentadas que não somem, no pescoço, axilas ou virilha;
- cansaço, perda de peso, suores noturnos ou infecções de repetição.
Diante de um hemograma alterado, a avaliação de um hematologista é o caminho para confirmar o diagnóstico e definir a melhor conduta — que, muitas vezes, é apenas acompanhar de perto.
Leia também: o guia completo sobre leucemia, a leucemia mieloide crônica (LMC), a leucemia mieloide aguda (LMA) e a leucemia linfoblástica aguda (LLA) e o guia sobre linfócitos altos e baixos.
Conheça também o linfoma não Hodgkin — a LLC e o linfoma linfocítico de pequenas células (SLL) são, na prática, a mesma doença vista em locais diferentes.
Perguntas frequentes sobre a LLC
Leucemia linfocítica crônica tem cura?
A LLC costuma ser controlada por muitos anos, mais do que “curada” no sentido clássico. Boa parte dos pacientes vive décadas com a doença estável, e alguns nunca precisam de tratamento. Quando o tratamento é necessário, as terapias-alvo em comprimidos controlam a doença por longos períodos, com boa qualidade de vida.
Por que às vezes o médico decide não tratar a LLC?
Porque, em pessoas sem sintomas e com doença estável, tratar cedo não traz benefício e ainda expõe a efeitos colaterais. Nesses casos, a observação vigilante (acompanhamento com exames periódicos) é a conduta mais segura. O tratamento começa quando surgem sintomas ou sinais de progressão.
Qual a diferença entre LLC e LMC?
As duas são crônicas, mas partem de células diferentes. A LLC nasce dos linfócitos (linhagem linfoide), enquanto a LMC nasce da linhagem mieloide e está ligada ao cromossomo Philadelphia. Os tratamentos também são distintos.
A LLC é a mesma coisa que linfoma?
Quase. Quando as mesmas células se acumulam sobretudo no sangue e na medula, chamamos de leucemia linfocítica crônica (LLC); quando se concentram nos linfonodos, chamamos de linfoma linfocítico de pequenas células (LLPC/SLL). São a mesma doença em locais diferentes.
Como a LLC é diagnosticada?
O hemograma costuma dar o primeiro sinal (linfócitos muito altos). A confirmação vem da imunofenotipagem por citometria de fluxo, que identifica as células B típicas da LLC. Exames genéticos (como FISH e TP53) ajudam a definir o risco e o tratamento.
A LLC é hereditária?
Na maioria dos casos, não. Ter um familiar com LLC aumenta um pouco o risco, mas a doença não é transmitida de forma direta como uma herança simples. A maior parte dos casos ocorre sem história familiar.
Sobre o autor
Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.
Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.
Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.
CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590
Aviso importante
As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.
Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.
Referências
- Diretriz da NCCN para pacientes: Chronic Lymphocytic Leukemia (NCCN Guidelines for Patients®, 2026).
- Na American Cancer Society: Chronic Lymphocytic Leukemia (CLL).
- No Instituto Nacional de Câncer (INCA): Leucemia.
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: agosto de 2026. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · LinkedIn · X: @henriquepecego.

