Leucemia linfocítica crônica (LLC): o que é, sintomas, diagnóstico e tratamento
Conteúdo escrito e revisado por médico hematologista · Revisado em 10 de agosto de 2026Como este conteúdo é feito
Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista

Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato

Leucemia linfocítica crônica (LLC) é um câncer do sangue que evolui devagar e atinge, sobretudo, adultos mais velhos. Ela é o tipo mais comum de leucemia em adultos no Ocidente e tem uma característica que surpreende muita gente: em boa parte dos casos, ela nem precisa de tratamento logo no início. Nela, a medula óssea produz um tipo de glóbulo branco — o linfócito B — de forma exagerada e lenta. Por isso, muitas pessoas convivem anos com a doença de forma estável, apenas em acompanhamento. Neste guia, você vai entender, de forma simples, o que é a LLC, quais são os sinais de alerta, como ela é diagnosticada e por que, muitas vezes, a melhor conduta é observar. Ele faz parte do nosso guia completo sobre leucemia.


O que é a leucemia linfocítica crônica?

A medula óssea é a fábrica do sangue, onde nascem os glóbulos vermelhos, as plaquetas e os glóbulos brancos. Na leucemia linfocítica crônica, um tipo de glóbulo branco chamado linfócito B passa a se multiplicar de forma descontrolada, mas lenta. Esses linfócitos, além de aumentarem em número, não funcionam direito: eles não defendem bem o corpo contra infecções. Com o tempo, vão se acumulando no sangue, na medula, nos linfonodos (as “ínguas”), no baço e no fígado.

A palavra “crônica” indica justamente que a doença cresce devagar, ao longo de anos. Por isso, muitas pessoas descobrem a LLC por acaso, em um exame de sangue de rotina. Vale conhecer também uma “prima” próxima: quando essas mesmas células se concentram nos linfonodos, e não no sangue, a doença recebe o nome de linfoma linfocítico de pequenas células (LLPC/SLL). São, na prática, a mesma doença vista em lugares diferentes.


Sintomas da leucemia linfocítica crônica: sinais de alerta

Um ponto marca a leucemia linfocítica crônica: na maioria das vezes, ela não dá sintomas no começo. De fato, é comum que o diagnóstico venha de um hemograma pedido por outro motivo, que mostra os linfócitos elevados. Quando os sintomas aparecem, costumam ser discretos. Portanto, vale atenção quando surgirem:

  • Ínguas (linfonodos) aumentadas, indolores, no pescoço, nas axilas ou na virilha.
  • Cansaço e fraqueza sem explicação.
  • Perda de peso e suores noturnos.
  • Sensação de barriga cheia ou desconforto no lado esquerdo, pelo aumento do baço.
  • Infecções de repetição, porque os glóbulos brancos doentes defendem mal o corpo.
  • Anemia, hematomas ou sangramentos fáceis, em fases mais avançadas.

Esses sinais também aparecem em várias situações benignas. No entanto, um hemograma com linfócitos muito elevados (a chamada linfocitose) costuma ser o achado que leva ao diagnóstico.

Sinais de alerta da leucemia linfocítica crônica (LLC)

Como a leucemia linfocítica crônica é diagnosticada

O diagnóstico da leucemia linfocítica crônica une exames simples de sangue a testes mais específicos:

  1. Hemograma. É quase sempre o ponto de partida: mostra o número de linfócitos muito aumentado. Em geral, mais de 5.000 linfócitos por microlitro já levanta a suspeita.
  2. Esfregaço de sangue. Ao microscópio, aparecem linfócitos característicos e as chamadas “células borradas – manchas de gumpretch” (smudge cells), típicas da LLC.
  3. Imunofenotipagem (citometria de fluxo). É o exame que confirma o diagnóstico. Ele identifica os marcadores na superfície das células e prova que se trata de uma LLC de linfócitos B.
  4. Exames genéticos (FISH e outros). Pesquisam alterações como a deleção 13q (de melhor evolução), a deleção 17p e as mutações do gene TP53 (que mudam a escolha do tratamento), além do estado mutacional do gene IGHV.

Às vezes, o médico também avalia a medula óssea. Contudo, na maioria dos casos, sangue e imunofenotipagem já fecham o diagnóstico.

Como a leucemia linfocítica crônica (LLC) é diagnosticada

Antes de se chegar ao diagnóstico de LLC, o achado costuma ser apenas uma contagem elevada no hemograma. Explico o que fazer nesse cenário no guia sobre linfócitos altos e baixos, que inclui a linfocitose B monoclonal — o degrau que existe entre o hemograma normal e a leucemia.

Estadiamento: entendendo os sistemas Rai e Binet

Depois de confirmar a doença, o hematologista define o “estágio”, que ajuda a prever a evolução e a decidir se e quando tratar. Existem dois sistemas:

  • Sistema Rai (0 a IV). Vai do estágio 0 (apenas linfócitos altos, baixo risco) até os estágios III e IV (com anemia ou plaquetas baixas, alto risco), passando pelo aumento de linfonodos, baço ou fígado.
  • Sistema Binet (A, B e C). Considera quantas áreas de linfonodos estão afetadas e se há anemia ou plaquetas baixas.

Em ambos, quanto mais avançado o estágio, maior a chance de a doença precisar de tratamento.


Tratamento da leucemia linfocítica crônica

Aqui está o que mais surpreende. No tratamento da leucemia linfocítica crônica, nem sempre a melhor conduta é começar remédio. Em pessoas sem sintomas e com doença estável, a orientação costuma ser a observação vigilante (também chamada de “conduta expectante” ou watch and wait): acompanhamento com consultas e exames periódicos, sem medicação. Isso não é abandono — é a estratégia mais segura quando o tratamento traria mais riscos do que benefícios.

Já quando surgem sintomas ou sinais de progressão, entram as opções modernas:

  • Terapias-alvo em comprimidos. São a base do tratamento atual: os inibidores de BTK (como ibrutinibe, acalabrutinibe e zanubrutinibe) e o inibidor de BCL-2 (venetoclax), que atacam mecanismos específicos das células doentes.
  • Anticorpos monoclonais. Medicamentos anti-CD20, como obinutuzumabe e rituximabe, muitas vezes combinados com a terapia-alvo.
  • Quimioimunoterapia. Ainda é uma opção possível em casos selecionados, embora as terapias-alvo tenham se tornado a preferência.
  • Transplante de medula óssea. Hoje é raro, reservado a casos de alto risco que não respondem bem aos tratamentos-alvo.

A presença de deleção 17p ou mutação de TP53 orienta a preferência pelas terapias-alvo. Com o tratamento certo, a maioria das pessoas mantém a LLC sob controle por muitos anos.

Tratamento da leucemia linfocítica crônica (LLC)

Prognóstico: o que esperar

A LLC é, em geral, uma doença de curso lento e bem controlável. Muitos pacientes vivem anos, ou décadas, com boa qualidade de vida — parte deles nunca precisa de tratamento. Segundo as diretrizes atuais, o prognóstico depende do estágio, das alterações genéticas e da resposta ao tratamento. Falar em “cura” nem sempre se aplica, mas o controle a longo prazo é a regra, e as terapias-alvo ampliaram muito esse horizonte. Cada caso é único, e o hematologista é quem define a melhor estratégia e acompanha a evolução.


Quando procurar um hematologista

Como a LLC costuma ser silenciosa, o hemograma tem papel central. Procure avaliação quando houver:

  • um hemograma com linfócitos persistentemente elevados (linfocitose), mesmo sem sintomas;
  • ínguas aumentadas que não somem, no pescoço, axilas ou virilha;
  • cansaço, perda de peso, suores noturnos ou infecções de repetição.

Diante de um hemograma alterado, a avaliação de um hematologista é o caminho para confirmar o diagnóstico e definir a melhor conduta — que, muitas vezes, é apenas acompanhar de perto.

Leia também: o guia completo sobre leucemia, a leucemia mieloide crônica (LMC), a leucemia mieloide aguda (LMA) e a leucemia linfoblástica aguda (LLA) e o guia sobre linfócitos altos e baixos.

Conheça também o linfoma não Hodgkin — a LLC e o linfoma linfocítico de pequenas células (SLL) são, na prática, a mesma doença vista em locais diferentes.


Perguntas frequentes sobre a LLC

Leucemia linfocítica crônica tem cura?

A LLC costuma ser controlada por muitos anos, mais do que “curada” no sentido clássico. Boa parte dos pacientes vive décadas com a doença estável, e alguns nunca precisam de tratamento. Quando o tratamento é necessário, as terapias-alvo em comprimidos controlam a doença por longos períodos, com boa qualidade de vida.

Por que às vezes o médico decide não tratar a LLC?

Porque, em pessoas sem sintomas e com doença estável, tratar cedo não traz benefício e ainda expõe a efeitos colaterais. Nesses casos, a observação vigilante (acompanhamento com exames periódicos) é a conduta mais segura. O tratamento começa quando surgem sintomas ou sinais de progressão.

Qual a diferença entre LLC e LMC?

As duas são crônicas, mas partem de células diferentes. A LLC nasce dos linfócitos (linhagem linfoide), enquanto a LMC nasce da linhagem mieloide e está ligada ao cromossomo Philadelphia. Os tratamentos também são distintos.

A LLC é a mesma coisa que linfoma?

Quase. Quando as mesmas células se acumulam sobretudo no sangue e na medula, chamamos de leucemia linfocítica crônica (LLC); quando se concentram nos linfonodos, chamamos de linfoma linfocítico de pequenas células (LLPC/SLL). São a mesma doença em locais diferentes.

Como a LLC é diagnosticada?

O hemograma costuma dar o primeiro sinal (linfócitos muito altos). A confirmação vem da imunofenotipagem por citometria de fluxo, que identifica as células B típicas da LLC. Exames genéticos (como FISH e TP53) ajudam a definir o risco e o tratamento.

A LLC é hereditária?

Na maioria dos casos, não. Ter um familiar com LLC aumenta um pouco o risco, mas a doença não é transmitida de forma direta como uma herança simples. A maior parte dos casos ocorre sem história familiar.


Sobre o autor

Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.

Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.

Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.

CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590


Aviso importante

As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.

Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.

Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.


Referências

Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: agosto de 2026. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · LinkedIn · X: @henriquepecego.

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