
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
Leucemia é um câncer do sangue que começa na medula óssea, a “fábrica” onde o corpo produz as células do sangue. Nela, células de defesa se multiplicam sem controle e ocupam o espaço das células normais. Como resultado, a produção de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos saudáveis e plaquetas fica prejudicada. É uma doença séria, mas o cenário mudou muito nas últimas décadas. Hoje, existem tratamentos eficazes e, em vários tipos, altas chances de controle e até de cura. Neste guia, você vai entender de forma simples o que é a doença, quais são os tipos, os sintomas e quando procurar um hematologista.
O que é leucemia?
Dentro dos ossos existe a medula óssea, um tecido esponjoso. É ali que o corpo fabrica todas as células do sangue. Na leucemia, porém, uma dessas células sofre alterações no material genético. A partir daí, ela passa a se multiplicar sem controle e gera células doentes, que não funcionam bem. Com o tempo, portanto, essas células “tomam conta” da medula e atrapalham a produção normal.
Essa competição explica boa parte dos sintomas. Por exemplo, quando faltam glóbulos vermelhos, surge a anemia, com cansaço e palidez. Além disso, a falta de glóbulos brancos saudáveis aumenta o risco de infecções. Já a queda das plaquetas favorece hematomas e sangramentos. Diferente de outros cânceres, a leucemia geralmente não forma um tumor sólido. Em vez disso, ela circula pelo sangue e pode se espalhar para o baço, o fígado e os gânglios (as ínguas).
Os tipos de leucemia: agudas e crônicas, mieloides e linfoides
Entender os tipos ajuda a compreender por que os sintomas, a velocidade e o tratamento variam tanto. Em resumo, a leucemia é classificada por dois critérios que se cruzam.
O primeiro critério é a velocidade. As leucemias agudas progridem rápido. Elas são formadas por células muito imaturas, os chamados blastos, que não amadurecem. Por isso, exigem tratamento em pouco tempo. Já as leucemias crônicas evoluem devagar, ao longo de meses ou anos. Além disso, são formadas por células mais maduras e, muitas vezes, dão poucos sintomas no início.
O segundo critério é a linhagem da célula de origem. Assim, as leucemias linfoides (ou linfoblásticas) começam nos linfócitos. Já as leucemias mieloides começam nas células que dariam origem a outros glóbulos brancos, como os neutrófilos.

Ao cruzar os dois critérios, chegamos aos quatro tipos principais.
Leucemia Mieloide Aguda (LMA)
Entre os adultos, a LMA é a leucemia aguda mais comum. Nela, as células imaturas se acumulam rapidamente na medula. Em geral, ela se manifesta com anemia, infecções e sangramentos. Por isso, o tratamento começa logo. Saiba mais no guia completo da LMA.
Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA)
Já a LLA é o tipo mais comum na infância. De fato, responde por cerca de 75% das leucemias em crianças menores de 15 anos, sobretudo entre 2 e 5 anos. No entanto, também acomete adultos, especialmente após os 45 anos. A boa notícia é que, em crianças, cerca de 80% dos casos são curados com o tratamento atual. Saiba mais no guia completo da LLA.
Leucemia Linfocítica Crônica (LLC)
No grupo das crônicas, a LLC é a mais frequente no Ocidente. Além disso, afeta principalmente pessoas mais velhas: mais de 75% dos pacientes têm acima de 60 anos. Como evolui lentamente, muitas vezes não dá sintomas por anos. Por isso, parte dos pacientes nem precisa de tratamento imediato — apenas acompanhamento regular, a chamada vigilância ativa.
Leucemia Mieloide Crônica (LMC)
Por fim, a LMC está ligada a uma alteração cromossômica específica, o cromossomo Philadelphia (gene BCR-ABL). Essa alteração produz uma proteína anormal, responsável pelo excesso de glóbulos brancos. Em geral, ela aparece em adultos entre 40 e 60 anos e passa por fases: crônica, acelerada e blástica. Vale destacar que foi uma das doenças que mais se transformaram na medicina. De fato, os medicamentos-alvo (os inibidores de tirosina quinase, como o imatinibe) mudaram completamente o prognóstico. Saiba mais no guia completo da LMC.
Onde este guia vai crescer: em breve, cada um desses quatro tipos ganhará um artigo próprio e detalhado aqui no blog. Por enquanto, este texto é a página central que reúne tudo sobre leucemia.
Sintomas da leucemia: sinais de alerta
Os sintomas variam conforme o tipo. As agudas dão sinais mais rápidos, enquanto as crônicas podem ser silenciosas no início. Ainda assim, a maioria vem daquela competição na medula óssea. Portanto, fique atento, sobretudo quando vários aparecem juntos e persistem:
- Cansaço, fraqueza e palidez — sinais de anemia.
- Febre e infecções de repetição — pela queda de glóbulos brancos saudáveis.
- Hematomas (roxos) e sangramentos fáceis — gengiva que sangra, sangramento no nariz ou pontinhos vermelhos na pele (petéquias), por falta de plaquetas.
- Suores noturnos e febre sem causa aparente.
- Perda de peso sem explicação e falta de apetite.
- Ínguas aumentadas (gânglios) no pescoço, nas axilas ou na virilha.
- Inchaço ou desconforto na barriga, pelo aumento do baço ou do fígado.
- Dores nos ossos ou nas articulações.

Vale reforçar, no entanto, que nenhum desses sintomas, isolado, significa leucemia. Na verdade, todos são muito mais comuns em situações benignas. Por isso, o que acende o alerta é a combinação e a persistência deles, principalmente com alterações no hemograma.
Causas e fatores de risco
Na maioria dos casos, não é possível identificar uma causa específica para a leucemia. Além disso, ela não é contagiosa e, em geral, não é herdada dos pais. Ainda assim, alguns fatores aumentam o risco:
- Exposição a radiação em altas doses.
- Contato com o benzeno e alguns pesticidas (exposições ocupacionais).
- Tabagismo, associado especialmente à LMA.
- Quimioterapia ou radioterapia prévias para tratar outros cânceres.
- Algumas condições genéticas, como a síndrome de Down e a anemia de Fanconi.
- Doenças prévias da medula óssea, como a síndrome mielodisplásica.
- Certos vírus, como o HTLV-1, ligados a tipos específicos.
Por outro lado, ter um fator de risco não significa que a pessoa vai desenvolver a doença. Aliás, muitos pacientes não têm nenhum fator identificável.
Como é feito o diagnóstico
O caminho do diagnóstico costuma começar por um exame simples e acessível. Veja como ele funciona, passo a passo:
- Hemograma. Quase sempre é o primeiro sinal. Ele pode mostrar anemia, plaquetas baixas e glóbulos brancos muito alterados, além de células imaturas.
- Exame da medula óssea (mielograma ou biópsia). É o exame que confirma o diagnóstico. Afinal, ele mostra as células doentes diretamente na “fábrica”.
- Citometria de fluxo e exames genéticos. Em seguida, eles identificam o tipo exato e características como o cromossomo Philadelphia. Assim, orientam a escolha do tratamento.
- Exames de imagem, quando necessários, para avaliar o baço, o fígado e os gânglios.

Definir o tipo com precisão é decisivo. Afinal, cada leucemia tem um tratamento e um prognóstico próprios.
Tratamentos: o que existe hoje
O tratamento depende do tipo, da idade e do estado geral de saúde. Além disso, evoluiu muito nos últimos anos. Em resumo, estas são as principais abordagens:
- Quimioterapia, muitas vezes em fases (indução, consolidação e manutenção), sobretudo nas leucemias agudas.
- Terapias-alvo, que atacam um defeito específico da célula doente. O melhor exemplo são os inibidores de tirosina quinase na LMC, que tornaram a doença controlável com comprimidos.
- Imunoterapia e anticorpos monoclonais, que ajudam o próprio sistema de defesa a combater as células doentes.
- Transplante de medula óssea (transplante de células-tronco), indicado em casos selecionados e de maior risco.
- Vigilância ativa. Em alguns casos de LLC, por exemplo, o melhor começo é acompanhar de perto, sem medicação, até que ela seja necessária.
- Cuidados de suporte, como transfusões e prevenção de infecções, que dão segurança durante todo o processo.
Quando procurar um hematologista
O hematologista é o médico especialista no sangue e na medula óssea. Ou seja, é ele quem investiga, diagnostica e trata as leucemias. Assim, vale procurar avaliação quando:
- o hemograma vem com alterações importantes ou que não voltam ao normal;
- há sintomas persistentes, como cansaço intenso, febre sem causa, sangramentos ou hematomas fáceis, ínguas que não somem, suores noturnos ou perda de peso;
- seu médico de confiança pediu uma opinião especializada.
Procurar ajuda cedo não é motivo para pânico. Afinal, na imensa maioria das vezes, a causa desses sintomas é benigna. Mesmo assim, quando se trata de leucemia, o diagnóstico e o tratamento no tempo certo fazem toda a diferença.
Leia também: Leucócitos altos ou baixos: o que os glóbulos brancos revelam e Transplante de medula óssea: o que é e como funciona.
Além das leucemias e dos linfomas, existe um terceiro grande grupo de câncer do sangue: conheça o mieloma múltiplo.
Conheça também a leucemia linfocítica crônica (LLC), que completa os quatro tipos principais de leucemia.
Perguntas frequentes sobre leucemia
Leucemia tem cura?
Depende do tipo e de cada caso. Ainda assim, muitos pacientes são curados ou mantêm a doença sob controle por muitos anos. Na LLA em crianças, por exemplo, cerca de 80% dos casos são curados. Já a LMC, com os medicamentos-alvo, costuma ser bem controlada.
Quais são os primeiros sinais de leucemia?
Os mais comuns são cansaço e palidez, por causa da anemia. Além disso, podem surgir febre, infecções repetidas, hematomas e sangramentos fáceis. Suores noturnos, perda de peso e ínguas também aparecem em alguns casos. No entanto, esses sintomas isolados quase sempre têm causas benignas — o que importa é a combinação e a persistência.
Leucemia é hereditária ou contagiosa?
Não. Ela não é contagiosa e, na grande maioria dos casos, não é herdada dos pais. É verdade que algumas condições genéticas aumentam o risco. Mesmo assim, a maioria das leucemias surge por alterações adquiridas ao longo da vida, sem causa identificável.
Qual exame detecta a leucemia?
O hemograma costuma dar o primeiro alerta. A confirmação, porém, vem do exame da medula óssea (o mielograma ou a biópsia). Em seguida, a citometria de fluxo e os exames genéticos definem o tipo exato.
Qual a diferença entre leucemia aguda e crônica?
A aguda progride rapidamente e é formada por células imaturas. Por isso, exige tratamento em pouco tempo. Já a crônica evolui devagar, com células mais maduras. Dessa forma, pode ficar anos sem dar sintomas — em alguns casos, apenas com acompanhamento.
Qual médico trata a leucemia?
É o hematologista, especialista no sangue e na medula óssea. Além do diagnóstico, ele define o tipo de leucemia e coordena o tratamento mais adequado para cada paciente.
Sobre o autor
Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.
Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.
Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.
CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590
Perto das leucemias existe um grupo vizinho, de evolução bem mais lenta: as neoplasias mieloproliferativas, cuja representante mais conhecida é a policitemia vera.
Uma orientação que todo paciente em tratamento de leucemia ouve na primeira consulta, e que vale repetir aqui: febre durante a quimioterapia é emergência. O passo a passo está no texto sobre neutropenia febril.
Aviso importante
As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.
Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.
Referências
- No Instituto Nacional de Câncer (INCA): Leucemia.
- Na American Cancer Society: Leukemia (tipos e informações para pacientes).
- Diretrizes da NCCN para pacientes: NCCN Guidelines for Patients®.
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: agosto;2026 | Acompanhe conteúdos sobre hematologia no Instagram @drhenriquepecegohemato ou saiba mais [sobre o autor] · LinkedIn · X: @henriquepecego.

