Mieloma múltiplo: sintomas, diagnóstico e tratamento
Conteúdo escrito e revisado por médico hematologista · Revisado em 13 de agosto de 2026Como este conteúdo é feito
Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista

Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato

Mieloma múltiplo é um câncer que nasce dentro da medula óssea, nas células responsáveis por produzir os anticorpos que nos defendem. Ele costuma se apresentar de um jeito silencioso e enganoso: uma dor nas costas que não passa, um cansaço que ninguém explica, um exame de sangue com a creatinina alterada. Por isso, muitas pessoas convivem meses com os sintomas antes de chegar ao diagnóstico correto.

Neste guia, explico de forma clara o que é o mieloma múltiplo, quais sinais merecem atenção, como o diagnóstico é feito e quais são os tratamentos disponíveis hoje. A boa notícia é que poucos cânceres mudaram tanto nos últimos vinte anos: pacientes que antes tinham poucos anos de sobrevida hoje vivem muito mais — e com qualidade de vida.


O que é o mieloma múltiplo

Dentro da medula óssea existe uma célula chamada plasmócito. Ela é a fábrica de anticorpos do corpo. No mieloma múltiplo, um plasmócito sofre alterações genéticas, começa a se multiplicar sem controle e forma um clone: milhões de cópias idênticas de uma célula defeituosa.

Plasmócitos na medula óssea vistos ao microscópio no mieloma múltiplo
Plasmócitos na medula óssea. No mieloma múltiplo, essas células se multiplicam de forma anormal e podem ocupar progressivamente o espaço das células normais do sangue. Imagem ilustrativa.

Esse clone causa problemas por dois caminhos diferentes.

Primeiro, ele ocupa espaço. Ao lotar a medula óssea, o clone atrapalha a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Daí vêm a anemia, as infecções de repetição e, às vezes, o sangramento fácil.

Segundo, ele produz uma proteína inútil em grande quantidade — a chamada proteína monoclonal, ou proteína M. Essa proteína circula pelo sangue, sobrecarrega os rins e pode se depositar em órgãos. Além disso, o clone libera substâncias que ativam a destruição do osso, criando as lesões líticas que enfraquecem o esqueleto.

Portanto, o mieloma múltiplo não é apenas “um tumor”. É uma doença que afeta o sangue, o osso e o rim ao mesmo tempo. Entender isso ajuda a compreender por que os sintomas são tão variados.


Um espectro, não uma doença só

Nem todo plasmócito alterado significa câncer ativo. Existe uma sequência bem estabelecida:

  • GMSI (gamopatia monoclonal de significado indeterminado): existe a proteína M, mas não há doença nem sintomas. Não é câncer. Cerca de 1% dos casos evolui por ano, e por isso o acompanhamento é feito com exames periódicos.
  • Mieloma indolente (smoldering): a doença já é mais volumosa, porém ainda não causou dano a nenhum órgão. Em geral, apenas se observa — exceto nos casos de alto risco.
  • Mieloma múltiplo ativo: existe dano de órgão. Aqui o tratamento é indicado.
  • Plasmocitoma solitário: um único tumor de plasmócitos, normalmente no osso, sem doença espalhada. Costuma ser tratado com radioterapia.

Essa distinção é fundamental. Muita gente recebe o rótulo de “mieloma” quando na verdade tem GMSI, que exige apenas acompanhamento.


Sintomas do mieloma múltiplo

Os sintomas do mieloma múltiplo são resumidos por uma sigla usada no mundo todo: CRAB. Cada letra representa um tipo de dano que a doença provoca.

Sinais de alerta do mieloma múltiplo: cálcio alto, problema renal, anemia e dor óssea (critérios CRAB)

C — Cálcio alto no sangue. Causa sede exagerada, vontade de urinar o tempo todo, prisão de ventre, náusea, fraqueza e confusão mental. Em casos graves, leva à sonolência profunda.

R — Rim (do inglês renal). A proteína produzida pelo clone entope os túbulos renais. O resultado aparece no exame como creatinina elevada, e no corpo como inchaço nas pernas, coceira e falta de ar.

A — Anemia. É o achado mais comum. Traz cansaço que não melhora com repouso, palidez, falta de ar aos esforços e tontura.

B — Bone, ou osso. A dor óssea é o sintoma que mais leva o paciente ao consultório. Costuma piorar com o movimento, atinge sobretudo a coluna, as costelas e o quadril, e não alivia como uma dor muscular comum. Fraturas por trauma mínimo — ou até sem trauma nenhum — são um sinal de alerta importante.

Além do CRAB, outros sinais merecem atenção: infecções repetidas (principalmente pneumonia), perda de peso sem motivo, formigamento nas mãos e nos pés e, mais raramente, sintomas neurológicos por compressão da medula espinhal.


O padrão que não pode passar batido

Existe uma combinação que todo médico deveria estranhar: pessoa acima de 60 anos, com dor nas costas persistente, anemia e creatinina alterada. Isoladamente, cada um desses achados tem dezenas de explicações. Juntos, eles pedem investigação para mieloma múltiplo.

Vale um alerta importante sobre a dor: quando a dor nas costas em uma pessoa mais velha vem acompanhada de perda de peso, piora à noite ou não melhora com repouso e analgésico comum, ela deixa de ser “coisa da idade”. Precisa ser investigada.


Quem tem mais risco

O mieloma múltiplo é uma doença de adultos mais velhos. A idade média ao diagnóstico gira em torno de 69 anos, e menos de 1% dos casos ocorre antes dos 35. No Brasil, cerca de 80% dos pacientes em tratamento têm mais de 60 anos.

Outros fatores aumentam o risco:

  • ser homem, já que a doença é um pouco mais frequente no sexo masculino;
  • ter ascendência africana, grupo em que a incidência é claramente maior;
  • ter GMSI previamente identificada;
  • ter histórico familiar da doença;
  • obesidade.

Ainda assim, é importante dizer com honestidade: na maioria dos casos não existe uma causa identificável. Ninguém desenvolve a doença por algo que fez ou deixou de fazer.


A VHS costuma estar muito elevada no mieloma múltiplo — é a causa hematológica clássica de valores acima de 100 mm/h. Se foi esse o achado que levantou a suspeita no seu caso, entenda o que um VHS alto quer dizer e como ele é investigado.

Como é feito o diagnóstico do mieloma múltiplo

O diagnóstico do mieloma múltiplo combina exames de sangue, exames de urina, avaliação da medula óssea e imagem. Nenhum exame isolado fecha o quadro.

Etapas do diagnóstico do mieloma múltiplo: sangue e urina, cadeias leves, medula óssea e exames de imagem

Exames de sangue e urina

  • Hemograma completo, para detectar anemia.
  • Creatinina e ureia, que avaliam a função dos rins.
  • Cálcio e albumina.
  • Eletroforese de proteínas séricas, o exame que revela o famoso “pico monoclonal”.
  • Imunofixação, que identifica exatamente qual tipo de anticorpo o clone produz.
  • Cadeias leves livres no soro, com o cálculo da relação kappa/lambda.
  • Proteinúria de 24 horas, capaz de detectar a proteína de Bence Jones.
  • Beta-2 microglobulina e DHL (LDH), usados no estadiamento.

Avaliação da medula óssea

O mielograma e a biópsia de medula óssea mostram qual porcentagem da medula está ocupada por plasmócitos clonais. Além disso, esse material vai para a citogenética e o FISH, exames que identificam alterações cromossômicas — informação decisiva para definir o risco e escolher o tratamento.

Exames de imagem

A radiografia simples do esqueleto ficou para trás. Hoje utilizamos tomografia de corpo inteiro de baixa dose, PET-TC ou ressonância magnética, que detectam lesões muito antes e com precisão bem maior.


Os critérios que fecham o diagnóstico

Para caracterizar mieloma múltiplo ativo, é preciso haver pelo menos 10% de plasmócitos clonais na medula (ou um plasmocitoma comprovado por biópsia) somado a pelo menos um destes achados:

  • qualquer critério CRAB — cálcio alto, lesão renal, anemia ou lesão óssea;
  • 60% ou mais de plasmócitos na medula;
  • relação de cadeias leves livres igual ou maior que 100;
  • mais de uma lesão focal na ressonância magnética.

Esses três últimos formam os chamados critérios SLiM, criados justamente para permitir que o tratamento comece antes que o dano aconteça.


Estadiamento e risco

Depois do diagnóstico, o estadiamento indica a extensão da doença. O sistema mais usado é o R-ISS, que combina quatro informações: beta-2 microglobulina, albumina, DHL e as alterações genéticas encontradas no FISH.

Contudo, é essencial entender o que o estágio significa — e o que ele não significa. Ele orienta a intensidade do tratamento e ajuda a estimar prognóstico em grupos de pacientes. Ele não determina o destino de ninguém individualmente. Pacientes de alto risco alcançam remissões longas todos os dias.


Tratamento do mieloma múltiplo

O tratamento do mieloma múltiplo mudou radicalmente. Até os anos 2000, as opções eram poucas. Hoje existem várias classes de medicamentos que atacam a doença por mecanismos diferentes — e é justamente a combinação delas que produz os melhores resultados.

Tratamento do mieloma múltiplo: esquemas de três ou quatro drogas, transplante autólogo, manutenção, CAR-T e biespecíficos

As classes de medicamentos

  • Inibidores de proteassoma: bortezomibe, carfilzomibe e ixazomibe. Bloqueiam o “triturador de lixo” da célula, que morre intoxicada pelas próprias proteínas.
  • Imunomoduladores: talidomida, lenalidomida e pomalidomida. Atacam o clone e, ao mesmo tempo, estimulam o sistema imune.
  • Anticorpos monoclonais: daratumumabe e isatuximabe, contra o alvo CD38, e elotuzumabe. Marcam a célula doente para destruição.
  • Corticoides: dexametasona, presente em praticamente todos os esquemas.
  • Quimioterapia clássica: melfalano e ciclofosfamida, hoje com papel mais específico.

Como o tratamento é montado

Na maioria dos casos, o tratamento inicial combina três ou quatro dessas drogas ao mesmo tempo — os chamados esquemas triplos e quádruplos. Essa estratégia ataca o clone por vários flancos e alcança respostas mais profundas.

Em seguida, para pacientes com boas condições clínicas, indica-se o transplante autólogo de medula óssea. Nele, as próprias células-tronco do paciente são coletadas e devolvidas depois de uma dose alta de quimioterapia. Vale esclarecer uma confusão comum: no mieloma, o transplante costuma ser autólogo, com células do próprio paciente, e não de doador.

Depois, vem a manutenção, geralmente com lenalidomida, tomada por longo prazo para prolongar a remissão.

Quando a doença volta

A doença tende a passar por períodos de remissão e recaída. Cada recaída, porém, tem tratamento — e as opções mais recentes são impressionantes:

  • CAR-T cells: as células de defesa do próprio paciente são reprogramadas em laboratório para reconhecer e destruir o mieloma.
  • Anticorpos biespecíficos: teclistamabe, talquetamabe e elranatamabe funcionam como uma ponte, aproximando o linfócito T da célula doente.

Cuidados que fazem tanta diferença quanto a quimioterapia

O tratamento não se resume aos medicamentos contra o clone. São igualmente importantes:

  • proteção óssea, com bisfosfonatos como o ácido zoledrônico, ou denosumabe;
  • cuidado com os rins, evitando anti-inflamatórios e contraste desnecessário, além de manter boa hidratação;
  • prevenção de infecções, com vacinas em dia e uso de antibióticos e antivirais para prevenção;
  • controle da dor e reabilitação, para preservar a autonomia;
  • atenção à trombose, já que vários esquemas aumentam esse risco.

Existe cura?

Preciso ser honesto: na maioria dos casos, o mieloma múltiplo ainda não é considerado curável. Contudo, essa frase envelheceu muito nos últimos anos. Hoje ele é tratado como uma doença crônica de longo curso, com pacientes em remissão por muitos anos, trabalhando, viajando e vivendo bem. Alguns permanecem sem sinal de doença por mais de uma década.

Além disso, o ritmo de novas aprovações é o mais acelerado de toda a hematologia. Quem começa o tratamento hoje tem um horizonte muito diferente de quem começou há dez anos.


Quando procurar um hematologista

Procure avaliação se você tiver:

  • dor óssea persistente, principalmente na coluna, que não melhora com repouso;
  • fratura após um trauma pequeno ou sem trauma nenhum;
  • anemia sem causa identificada;
  • creatinina alterada sem explicação;
  • cálcio alto no exame de sangue;
  • infecções de repetição junto com cansaço e perda de peso;
  • um “pico monoclonal” ou proteína M encontrada por acaso em algum exame.

Encontrar uma proteína monoclonal no exame não significa ter câncer. Significa que vale a pena investigar com calma e com quem entende do assunto.


Perguntas frequentes sobre mieloma múltiplo

Mieloma múltiplo tem cura?

Na maioria dos casos, o mieloma múltiplo ainda não é considerado curável. No entanto, é altamente tratável: com os esquemas atuais, muitos pacientes alcançam remissões longas e vivem anos com boa qualidade de vida. O plasmocitoma solitário, por outro lado, pode ser curado com radioterapia.

Mieloma múltiplo é hereditário?

Na maior parte das vezes, não. Ter um parente de primeiro grau com a doença aumenta discretamente o risco, mas a doença não é transmitida de forma direta como uma doença genética clássica. A grande maioria dos casos ocorre sem qualquer histórico familiar.

Qual a diferença entre GMSI e mieloma múltiplo?

Na GMSI existe uma proteína monoclonal no sangue, porém sem dano a nenhum órgão e com pouca ocupação da medula. Ela não é câncer e exige apenas acompanhamento. O mieloma ativo, por sua vez, já causa dano — anemia, lesão óssea, problema renal ou cálcio alto — e precisa de tratamento.

O transplante de medula é obrigatório no mieloma múltiplo?

Não. O transplante autólogo costuma ser indicado para pacientes com boas condições clínicas, porque aprofunda e prolonga a resposta. Entretanto, muita gente é tratada com excelentes resultados sem transplante, especialmente com os esquemas modernos de quatro drogas.

Quais exames detectam o mieloma múltiplo?

O ponto de partida costuma ser a eletroforese de proteínas séricas, junto com a dosagem de cadeias leves livres, hemograma, creatinina e cálcio. A confirmação vem do mielograma com biópsia de medula óssea e dos exames de imagem, como a tomografia de corpo inteiro de baixa dose ou o PET-TC.

Dor nas costas pode ser mieloma múltiplo?

Pode, embora a imensa maioria das dores nas costas tenha causas benignas. O que chama atenção é a dor que não melhora com repouso, piora à noite, dura semanas e vem acompanhada de cansaço, perda de peso ou alteração nos exames de sangue. Nessa combinação, a investigação é necessária.


Sobre o autor

Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.

Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.

Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.

CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590

Quem trata mieloma também passa por períodos de neutrófilos baixos, e febre nesses dias é emergência. Expliquei o que fazer no texto sobre neutropenia febril.


Aviso importante

As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.

Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.

Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.


Referências

Leia também

Continue aprendendo sobre hematologia nestes guias:

Encontrou um “pico monoclonal” no exame e ainda não tem diagnóstico? Leia sobre a gamopatia monoclonal de significado indeterminado (GMSI) — que não é câncer e, na maioria das vezes, só precisa de acompanhamento.

Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista — CRM-RJ 89269-6. Última revisão: agosto de 2026. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · LinkedIn · X: @henriquepecego.

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