
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
Mieloma múltiplo é um câncer que nasce dentro da medula óssea, nas células responsáveis por produzir os anticorpos que nos defendem. Ele costuma se apresentar de um jeito silencioso e enganoso: uma dor nas costas que não passa, um cansaço que ninguém explica, um exame de sangue com a creatinina alterada. Por isso, muitas pessoas convivem meses com os sintomas antes de chegar ao diagnóstico correto.
Neste guia, explico de forma clara o que é o mieloma múltiplo, quais sinais merecem atenção, como o diagnóstico é feito e quais são os tratamentos disponíveis hoje. A boa notícia é que poucos cânceres mudaram tanto nos últimos vinte anos: pacientes que antes tinham poucos anos de sobrevida hoje vivem muito mais — e com qualidade de vida.
O que é o mieloma múltiplo
Dentro da medula óssea existe uma célula chamada plasmócito. Ela é a fábrica de anticorpos do corpo. No mieloma múltiplo, um plasmócito sofre alterações genéticas, começa a se multiplicar sem controle e forma um clone: milhões de cópias idênticas de uma célula defeituosa.

Esse clone causa problemas por dois caminhos diferentes.
Primeiro, ele ocupa espaço. Ao lotar a medula óssea, o clone atrapalha a produção normal de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Daí vêm a anemia, as infecções de repetição e, às vezes, o sangramento fácil.
Segundo, ele produz uma proteína inútil em grande quantidade — a chamada proteína monoclonal, ou proteína M. Essa proteína circula pelo sangue, sobrecarrega os rins e pode se depositar em órgãos. Além disso, o clone libera substâncias que ativam a destruição do osso, criando as lesões líticas que enfraquecem o esqueleto.
Portanto, o mieloma múltiplo não é apenas “um tumor”. É uma doença que afeta o sangue, o osso e o rim ao mesmo tempo. Entender isso ajuda a compreender por que os sintomas são tão variados.
Um espectro, não uma doença só
Nem todo plasmócito alterado significa câncer ativo. Existe uma sequência bem estabelecida:
- GMSI (gamopatia monoclonal de significado indeterminado): existe a proteína M, mas não há doença nem sintomas. Não é câncer. Cerca de 1% dos casos evolui por ano, e por isso o acompanhamento é feito com exames periódicos.
- Mieloma indolente (smoldering): a doença já é mais volumosa, porém ainda não causou dano a nenhum órgão. Em geral, apenas se observa — exceto nos casos de alto risco.
- Mieloma múltiplo ativo: existe dano de órgão. Aqui o tratamento é indicado.
- Plasmocitoma solitário: um único tumor de plasmócitos, normalmente no osso, sem doença espalhada. Costuma ser tratado com radioterapia.
Essa distinção é fundamental. Muita gente recebe o rótulo de “mieloma” quando na verdade tem GMSI, que exige apenas acompanhamento.
Sintomas do mieloma múltiplo
Os sintomas do mieloma múltiplo são resumidos por uma sigla usada no mundo todo: CRAB. Cada letra representa um tipo de dano que a doença provoca.

C — Cálcio alto no sangue. Causa sede exagerada, vontade de urinar o tempo todo, prisão de ventre, náusea, fraqueza e confusão mental. Em casos graves, leva à sonolência profunda.
R — Rim (do inglês renal). A proteína produzida pelo clone entope os túbulos renais. O resultado aparece no exame como creatinina elevada, e no corpo como inchaço nas pernas, coceira e falta de ar.
A — Anemia. É o achado mais comum. Traz cansaço que não melhora com repouso, palidez, falta de ar aos esforços e tontura.
B — Bone, ou osso. A dor óssea é o sintoma que mais leva o paciente ao consultório. Costuma piorar com o movimento, atinge sobretudo a coluna, as costelas e o quadril, e não alivia como uma dor muscular comum. Fraturas por trauma mínimo — ou até sem trauma nenhum — são um sinal de alerta importante.
Além do CRAB, outros sinais merecem atenção: infecções repetidas (principalmente pneumonia), perda de peso sem motivo, formigamento nas mãos e nos pés e, mais raramente, sintomas neurológicos por compressão da medula espinhal.
O padrão que não pode passar batido
Existe uma combinação que todo médico deveria estranhar: pessoa acima de 60 anos, com dor nas costas persistente, anemia e creatinina alterada. Isoladamente, cada um desses achados tem dezenas de explicações. Juntos, eles pedem investigação para mieloma múltiplo.
Vale um alerta importante sobre a dor: quando a dor nas costas em uma pessoa mais velha vem acompanhada de perda de peso, piora à noite ou não melhora com repouso e analgésico comum, ela deixa de ser “coisa da idade”. Precisa ser investigada.
Quem tem mais risco
O mieloma múltiplo é uma doença de adultos mais velhos. A idade média ao diagnóstico gira em torno de 69 anos, e menos de 1% dos casos ocorre antes dos 35. No Brasil, cerca de 80% dos pacientes em tratamento têm mais de 60 anos.
Outros fatores aumentam o risco:
- ser homem, já que a doença é um pouco mais frequente no sexo masculino;
- ter ascendência africana, grupo em que a incidência é claramente maior;
- ter GMSI previamente identificada;
- ter histórico familiar da doença;
- obesidade.
Ainda assim, é importante dizer com honestidade: na maioria dos casos não existe uma causa identificável. Ninguém desenvolve a doença por algo que fez ou deixou de fazer.
A VHS costuma estar muito elevada no mieloma múltiplo — é a causa hematológica clássica de valores acima de 100 mm/h. Se foi esse o achado que levantou a suspeita no seu caso, entenda o que um VHS alto quer dizer e como ele é investigado.
Como é feito o diagnóstico do mieloma múltiplo
O diagnóstico do mieloma múltiplo combina exames de sangue, exames de urina, avaliação da medula óssea e imagem. Nenhum exame isolado fecha o quadro.

Exames de sangue e urina
- Hemograma completo, para detectar anemia.
- Creatinina e ureia, que avaliam a função dos rins.
- Cálcio e albumina.
- Eletroforese de proteínas séricas, o exame que revela o famoso “pico monoclonal”.
- Imunofixação, que identifica exatamente qual tipo de anticorpo o clone produz.
- Cadeias leves livres no soro, com o cálculo da relação kappa/lambda.
- Proteinúria de 24 horas, capaz de detectar a proteína de Bence Jones.
- Beta-2 microglobulina e DHL (LDH), usados no estadiamento.
Avaliação da medula óssea
O mielograma e a biópsia de medula óssea mostram qual porcentagem da medula está ocupada por plasmócitos clonais. Além disso, esse material vai para a citogenética e o FISH, exames que identificam alterações cromossômicas — informação decisiva para definir o risco e escolher o tratamento.
Exames de imagem
A radiografia simples do esqueleto ficou para trás. Hoje utilizamos tomografia de corpo inteiro de baixa dose, PET-TC ou ressonância magnética, que detectam lesões muito antes e com precisão bem maior.
Os critérios que fecham o diagnóstico
Para caracterizar mieloma múltiplo ativo, é preciso haver pelo menos 10% de plasmócitos clonais na medula (ou um plasmocitoma comprovado por biópsia) somado a pelo menos um destes achados:
- qualquer critério CRAB — cálcio alto, lesão renal, anemia ou lesão óssea;
- 60% ou mais de plasmócitos na medula;
- relação de cadeias leves livres igual ou maior que 100;
- mais de uma lesão focal na ressonância magnética.
Esses três últimos formam os chamados critérios SLiM, criados justamente para permitir que o tratamento comece antes que o dano aconteça.
Estadiamento e risco
Depois do diagnóstico, o estadiamento indica a extensão da doença. O sistema mais usado é o R-ISS, que combina quatro informações: beta-2 microglobulina, albumina, DHL e as alterações genéticas encontradas no FISH.
Contudo, é essencial entender o que o estágio significa — e o que ele não significa. Ele orienta a intensidade do tratamento e ajuda a estimar prognóstico em grupos de pacientes. Ele não determina o destino de ninguém individualmente. Pacientes de alto risco alcançam remissões longas todos os dias.
Tratamento do mieloma múltiplo
O tratamento do mieloma múltiplo mudou radicalmente. Até os anos 2000, as opções eram poucas. Hoje existem várias classes de medicamentos que atacam a doença por mecanismos diferentes — e é justamente a combinação delas que produz os melhores resultados.

As classes de medicamentos
- Inibidores de proteassoma: bortezomibe, carfilzomibe e ixazomibe. Bloqueiam o “triturador de lixo” da célula, que morre intoxicada pelas próprias proteínas.
- Imunomoduladores: talidomida, lenalidomida e pomalidomida. Atacam o clone e, ao mesmo tempo, estimulam o sistema imune.
- Anticorpos monoclonais: daratumumabe e isatuximabe, contra o alvo CD38, e elotuzumabe. Marcam a célula doente para destruição.
- Corticoides: dexametasona, presente em praticamente todos os esquemas.
- Quimioterapia clássica: melfalano e ciclofosfamida, hoje com papel mais específico.
Como o tratamento é montado
Na maioria dos casos, o tratamento inicial combina três ou quatro dessas drogas ao mesmo tempo — os chamados esquemas triplos e quádruplos. Essa estratégia ataca o clone por vários flancos e alcança respostas mais profundas.
Em seguida, para pacientes com boas condições clínicas, indica-se o transplante autólogo de medula óssea. Nele, as próprias células-tronco do paciente são coletadas e devolvidas depois de uma dose alta de quimioterapia. Vale esclarecer uma confusão comum: no mieloma, o transplante costuma ser autólogo, com células do próprio paciente, e não de doador.
Depois, vem a manutenção, geralmente com lenalidomida, tomada por longo prazo para prolongar a remissão.
Quando a doença volta
A doença tende a passar por períodos de remissão e recaída. Cada recaída, porém, tem tratamento — e as opções mais recentes são impressionantes:
- CAR-T cells: as células de defesa do próprio paciente são reprogramadas em laboratório para reconhecer e destruir o mieloma.
- Anticorpos biespecíficos: teclistamabe, talquetamabe e elranatamabe funcionam como uma ponte, aproximando o linfócito T da célula doente.
Cuidados que fazem tanta diferença quanto a quimioterapia
O tratamento não se resume aos medicamentos contra o clone. São igualmente importantes:
- proteção óssea, com bisfosfonatos como o ácido zoledrônico, ou denosumabe;
- cuidado com os rins, evitando anti-inflamatórios e contraste desnecessário, além de manter boa hidratação;
- prevenção de infecções, com vacinas em dia e uso de antibióticos e antivirais para prevenção;
- controle da dor e reabilitação, para preservar a autonomia;
- atenção à trombose, já que vários esquemas aumentam esse risco.
Existe cura?
Preciso ser honesto: na maioria dos casos, o mieloma múltiplo ainda não é considerado curável. Contudo, essa frase envelheceu muito nos últimos anos. Hoje ele é tratado como uma doença crônica de longo curso, com pacientes em remissão por muitos anos, trabalhando, viajando e vivendo bem. Alguns permanecem sem sinal de doença por mais de uma década.
Além disso, o ritmo de novas aprovações é o mais acelerado de toda a hematologia. Quem começa o tratamento hoje tem um horizonte muito diferente de quem começou há dez anos.
Quando procurar um hematologista
Procure avaliação se você tiver:
- dor óssea persistente, principalmente na coluna, que não melhora com repouso;
- fratura após um trauma pequeno ou sem trauma nenhum;
- anemia sem causa identificada;
- creatinina alterada sem explicação;
- cálcio alto no exame de sangue;
- infecções de repetição junto com cansaço e perda de peso;
- um “pico monoclonal” ou proteína M encontrada por acaso em algum exame.
Encontrar uma proteína monoclonal no exame não significa ter câncer. Significa que vale a pena investigar com calma e com quem entende do assunto.
Perguntas frequentes sobre mieloma múltiplo
Mieloma múltiplo tem cura?
Na maioria dos casos, o mieloma múltiplo ainda não é considerado curável. No entanto, é altamente tratável: com os esquemas atuais, muitos pacientes alcançam remissões longas e vivem anos com boa qualidade de vida. O plasmocitoma solitário, por outro lado, pode ser curado com radioterapia.
Mieloma múltiplo é hereditário?
Na maior parte das vezes, não. Ter um parente de primeiro grau com a doença aumenta discretamente o risco, mas a doença não é transmitida de forma direta como uma doença genética clássica. A grande maioria dos casos ocorre sem qualquer histórico familiar.
Qual a diferença entre GMSI e mieloma múltiplo?
Na GMSI existe uma proteína monoclonal no sangue, porém sem dano a nenhum órgão e com pouca ocupação da medula. Ela não é câncer e exige apenas acompanhamento. O mieloma ativo, por sua vez, já causa dano — anemia, lesão óssea, problema renal ou cálcio alto — e precisa de tratamento.
O transplante de medula é obrigatório no mieloma múltiplo?
Não. O transplante autólogo costuma ser indicado para pacientes com boas condições clínicas, porque aprofunda e prolonga a resposta. Entretanto, muita gente é tratada com excelentes resultados sem transplante, especialmente com os esquemas modernos de quatro drogas.
Quais exames detectam o mieloma múltiplo?
O ponto de partida costuma ser a eletroforese de proteínas séricas, junto com a dosagem de cadeias leves livres, hemograma, creatinina e cálcio. A confirmação vem do mielograma com biópsia de medula óssea e dos exames de imagem, como a tomografia de corpo inteiro de baixa dose ou o PET-TC.
Dor nas costas pode ser mieloma múltiplo?
Pode, embora a imensa maioria das dores nas costas tenha causas benignas. O que chama atenção é a dor que não melhora com repouso, piora à noite, dura semanas e vem acompanhada de cansaço, perda de peso ou alteração nos exames de sangue. Nessa combinação, a investigação é necessária.
Sobre o autor
Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.
Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.
Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.
CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590
Quem trata mieloma também passa por períodos de neutrófilos baixos, e febre nesses dias é emergência. Expliquei o que fazer no texto sobre neutropenia febril.
Aviso importante
As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.
Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.
Referências
- National Comprehensive Cancer Network — NCCN Guidelines for Patients®: Multiple Myeloma
- American Cancer Society — What Is Multiple Myeloma?
- American Cancer Society — Tests for Multiple Myeloma
- American Cancer Society — Signs and Symptoms of Multiple Myeloma
- American Society of Hematology — Myeloma
- MedlinePlus — Multiple myeloma
- ABHH — Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular: Mieloma múltiplo
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Encontrou um “pico monoclonal” no exame e ainda não tem diagnóstico? Leia sobre a gamopatia monoclonal de significado indeterminado (GMSI) — que não é câncer e, na maioria das vezes, só precisa de acompanhamento.
- Transplante de medula óssea: como funciona
- Anemia: sintomas, tipos e quando se preocupar
- Como entender seu hemograma
- Leucemia: guia completo
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista — CRM-RJ 89269-6. Última revisão: agosto de 2026. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · LinkedIn · X: @henriquepecego.

