
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
A trombose acontece quando um coágulo de sangue se forma dentro de uma veia ou artéria e atrapalha ou mesmo bloqueia a passagem do sangue. Ela costuma aparecer nas veias das pernas, pode passar despercebida no começo e, em alguns casos, se torna uma emergência. A boa notícia é que, quando reconhecida e tratada a tempo, a maioria das pessoas se recupera bem. Neste guia eu explico, de um jeito simples, os sinais para ficar de olho, o que aumenta o risco, como é o tratamento e — importante — quando vale a pena procurar um hematologista.
O que é trombose?
Trombose é a formação de um coágulo (trombo) dentro de um vaso sanguíneo, bloqueando total ou parcialmente a circulação naquele ponto. O tipo mais comum é a trombose venosa profunda (TVP), que atinge as veias profundas das pernas ou da coxa.
Existe também a trombose arterial (ligada a infarto e AVC), mas, quando as pessoas falam de “trombose” no dia a dia, quase sempre estão se referindo à trombose venosa — e é nela que vamos focar aqui.
O problema da TVP não é só o desconforto na perna. O risco maior é o êmbolo, ou um pedaço dele, se soltar e viajar até o pulmão, causando uma embolia pulmonar — uma situação grave. Por isso a trombose merece atenção e nunca deve ser tratada por conta própria.
Principais sintomas da trombose (na perna)
A trombose venosa costuma dar sinais em uma perna só. Fique atento a:
- Inchaço na panturrilha, no tornozelo, no pé ou na coxa — geralmente de um lado só.
- Dor ou sensibilidade, muitas vezes na panturrilha, que piora ao ficar em pé ou caminhar.
- Sensação de calor na região afetada.
- Vermelhidão ou mudança na cor da pele.
- Veias mais salientes logo abaixo da pele.
Um alerta importante: nem toda trombose dá sintomas claros, e nem toda dor na perna é trombose. Como não dá para ter certeza em casa, na dúvida o caminho é procurar avaliação médica.

Sinais de alerta: quando a trombose vira emergência
Se o coágulo se solta e chega aos pulmões, acontece a embolia pulmonar, que é uma emergência médica. Apesar disso, os sintomas podem ser variados e leves a depender do grau de acometimento pulmonar acometido. Procure atendimento imediato (pronto-socorro / SAMU 192) se surgir:
- Falta de ar súbita, sem explicação.
- Dor no peito, que costuma piorar ao respirar fundo.
- Tosse com sangue.
- Coração acelerado (palpitações).
- Tontura, desmaio ou sensação de que vai desmaiar.
Não espere para ver se melhora sozinho. Nesses casos, cada minuto conta.

O que causa trombose? Os fatores de risco
O coágulo se forma quando três condições se combinam (a chamada tríade de Virchow): lesão na parede da veia, sangue com tendência aumentada a coagular e circulação mais lenta. Na prática, isso se traduz nos fatores de risco abaixo:
| Categoria | O que aumenta o risco |
|---|---|
| Imobilidade / circulação lenta | Viagens longas (avião, ônibus, carro), ficar muito tempo acamado, pós-operatório |
| Cirurgias e internações | Cirurgias de grande porte, principalmente de quadril, joelho e abdome |
| Alterações da coagulação | Trombofilias (tendência hereditária a coagular), câncer e seu tratamento |
| Hormônios | Anticoncepcional e terapia de reposição hormonal |
| Gravidez e pós-parto | O corpo naturalmente coagula mais nessa fase |
| Estilo de vida e saúde | Tabagismo, obesidade, idade acima de 40 anos, desidratação |
| Histórico | Trombose anterior, casos de trombose na família, varizes |
Ter um fator de risco não significa que você vai ter trombose — mas quanto mais fatores se somam, maior a atenção que o tema pede.

Uma observação sobre as plaquetas: contagem alta no hemograma raramente é a causa de uma trombose. Quando a elevação é reativa, ela praticamente não muda o risco — o que pesa é a doença de base. Expliquei essa diferença no guia sobre plaquetas altas.
Como é feito o diagnóstico
Só o exame confirma a trombose. Os principais são:
- Ultrassom com Doppler: é o exame principal. Mostra o fluxo de sangue na veia e se há um coágulo. É simples, rápido e não usa radiação.
- Exame de sangue D-dímero: mede uma substância que sobe quando há coágulos no corpo. Quando vem normal, ajuda a afastar o diagnóstico.
- Angiotomografia (angio-TC): usada principalmente quando há suspeita de embolia pulmonar, para olhar os vasos do pulmão.
Qual o tratamento da trombose
O tratamento gira em torno dos anticoagulantes. Eles não dissolvem o coágulo de imediato, mas impedem que ele cresça e que novos se formem, enquanto o próprio corpo vai reabsorvendo o trombo aos poucos.
- Anticoagulantes: injetáveis (heparina de baixo peso molecular) no início e/ou orais (DOACs ou varfarina) na manutenção.
- Meias de compressão: ajudam no inchaço e na circulação e reduzem o risco de sequelas.
- Casos selecionados: medicamentos que dissolvem o coágulo (trombolíticos) ou filtro de veia cava, quando o anticoagulante não pode ser usado.
Uma dúvida comum: por quanto tempo tomar o anticoagulante? Depende da causa. Uma trombose provocada por uma situação passageira pode ser tratada por alguns meses; já quem tem trombose sem causa aparente, casos repetidos ou uma trombofilia pode precisar de tratamento prolongado. Essa decisão é sempre individual e feita com o médico.
Como prevenir a trombose
Boa parte das tromboses pode ser evitada com atitudes simples, especialmente nos momentos de maior risco:
- Em viagens longas: levante-se e caminhe a cada 1–2 horas, mexa os tornozelos com frequência e beba bastante água.
- Após cirurgias ou internações: movimente-se cedo e use as meias de compressão ou os medicamentos preventivos, se prescritos.
- No dia a dia: evite ficar muitas horas parado, não fume, mantenha o peso sob controle e cuide de condições como pressão e diabetes.
Quando procurar um hematologista
O hematologista é o especialista no sangue e na coagulação — e há situações em que a avaliação dele faz diferença de verdade. Vale procurar um hematologista quando a trombose:
- Aconteceu sem uma causa clara (sem cirurgia, viagem longa ou outro gatilho evidente).
- Se repetiu (mais de um episódio ao longo da vida).
- Apareceu em uma pessoa jovem.
- Ocorreu em locais incomuns (por exemplo, veias do abdome ou do braço).
- Vem acompanhada de histórico familiar forte de trombose.
Nesses casos, pode ser indicado investigar uma trombofilia — uma predisposição, muitas vezes herdada, a formar coágulos. O hematologista também orienta o tempo de anticoagulação, ajusta o tratamento em situações especiais (como gravidez e câncer) e ajuda no planejamento de uma futura gestação em quem já teve trombose. Ou seja: ele ajuda a entender por que a trombose aconteceu e como reduzir a chance de ela voltar além de ajudar na definição do uso do anticoagulante crônicamente ou não.
Leia também: Plaquetas baixas: causas, sinais de alerta e quando se preocupar e Anemia: sintomas, tipos e quando se preocupar.
Vários tratamentos do mieloma múltiplo aumentam o risco de trombose — por isso a prevenção faz parte do acompanhamento.
Perguntas frequentes sobre trombose
Trombose tem cura?
Na maioria dos casos, sim. Com o tratamento anticoagulante, o corpo reabsorve o coágulo ao longo dos meses e a pessoa se recupera bem. O segredo é tratar a tempo e, quando necessário, investigar e corrigir a causa para evitar que volte.
Trombose na perna é perigosa?
Pode ser, principalmente pelo risco de o coágulo se soltar e causar uma embolia pulmonar. Por isso a trombose não deve ser ignorada nem tratada por conta própria: quanto mais cedo o diagnóstico, menor o risco.
Como saber se é trombose ou só uma dor na perna?
Os sinais mais típicos são inchaço em uma perna, dor ou sensibilidade na panturrilha, calor e vermelhidão. Mas muitas outras causas provocam dor na perna, e só o ultrassom com Doppler confirma. Na dúvida, procure avaliação médica.
Quem tem trombose pode viajar de avião?
Em geral sim, desde que com orientação médica e o tratamento em dia. Ajuda mexer as pernas com frequência, hidratar-se bem e, se indicado, usar meias de compressão. Converse com seu médico antes de viagens longas.
Anticoagulante é para sempre?
Nem sempre. Alguns casos são tratados por poucos meses; outros, como trombose recorrente, trombofilia ou câncer, podem exigir anticoagulação por tempo prolongado. Essa decisão é individual e cabe ao médico.
Quando devo procurar um hematologista?
Quando a trombose acontece sem causa clara, se repete, surge em pessoa jovem, aparece em locais incomuns ou há histórico familiar. Nessas situações, vale investigar uma trombofilia e alinhar o melhor plano de tratamento e prevenção.
Sobre o autor
Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.
Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.
Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.
CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590
Duas leituras que ajudam a entender a investigação de uma trombose sem causa aparente: a policitemia vera, uma das causas hematológicas, e o coagulograma alterado, que explica por que o anticoagulante lúpico alarga o exame e ainda assim favorece trombose.
Aviso importante
As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.
Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento de um profissional de saúde. Se você tem sinais de trombose, procure atendimento médico; diante de sinais de embolia pulmonar (falta de ar súbita, dor no peito, tosse com sangue), procure emergência imediatamente.
Referências
- Manual MSD — Versão Saúde para a Família. Trombose venosa profunda (TVP).
- Cleveland Clinic. Deep Vein Thrombosis (DVT).
- Mayo Clinic. Deep vein thrombosis (DVT) — Symptoms & causes.
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: agosto;2026 | Acompanhe conteúdos sobre hematologia no Instagram @drhenriquepecegohemato ou saiba mais [sobre o autor] · LinkedIn · X: @henriquepecego.

