
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
Receber um hemograma com a frase “plaquetas baixas” costuma gerar preocupação — afinal, as plaquetas são os componentes do sangue que ajudam o sangue a coagular. A boa notícia é que, na maioria das vezes, a queda é leve e tem causas simples e tratáveis. Neste guia, eu explico, em linguagem clara, o que significa ter plaquetas baixas (também chamado de plaquetopenia ou trombocitopenia), quais são as causas mais comuns, os sintomas a observar e, principalmente, quando é hora de procurar ajuda médica.
Se você ainda tem dúvidas sobre como ler o seu exame de sangue por completo, vale a pena conferir antes o nosso guia como entender o seu hemograma.
O que são plaquetas e para que servem
As plaquetas (ou trombócitos) são pequenos fragmentos de células produzidos na medula óssea. A função principal delas é a coagulação: quando você se machuca, as plaquetas se agrupam no local da lesão, formam um “tampão” e param o sangramento. Sem plaquetas suficientes, mesmo um pequeno corte pode sangrar mais do que o normal, e podem surgir manchas roxas na pele sem motivo aparente.
O que é considerado plaquetas baixas? Veja os valores de referência
Em um adulto saudável, a contagem normal de plaquetas fica, geralmente, entre 150.000 e 450.000 por microlitro (µL) de sangue. Falamos em plaquetopenia quando o número cai abaixo de 150.000. Mas atenção: uma contagem um pouco abaixo do limite não significa, por si só, um problema relevante ou mesmo grave. O risco de sangramento depende de quão baixas estão as plaquetas.

Em geral, sangramentos espontâneos só se tornam prováveis quando as plaquetas caem bastante (abaixo de 20.000). Cada caso, porém, é individual e deve ser interpretado por um médico junto com o restante do hemograma e o seu histórico de saúde.
E o contrário? Plaquetas acima de 450.000 também aparecem com frequência no hemograma, e a lógica da investigação é bem diferente — na maioria das vezes é reação a uma inflamação ou a falta de ferro, não doença da medula. Escrevi um guia separado sobre plaquetas altas.
9 causas de plaquetas baixas (plaquetopenia)
As causas se dividem em três grandes mecanismos: a medula produz poucas plaquetas, o corpo destrói ou consome plaquetas rápido demais, ou o baço “segura” plaquetas em excesso. Veja as causas mais frequentes na prática.

1. Dengue e outras infecções virais
No Brasil, a dengue é uma das causas mais comuns de queda súbita das plaquetas, e a plaquetopenia é um dos sinais que os médicos acompanham de perto na doença. Outras viroses (como zika, chikungunya, gripe, COVID-19, mononucleose e hepatites) também podem baixar as plaquetas temporariamente. Nesses casos, a contagem costuma se recuperar após a fase aguda da infecção.
2. Púrpura trombocitopênica imune (PTI)
Na PTI, o próprio sistema imunológico produz anticorpos que destroem as plaquetas por engano. É uma das causas mais comuns de plaquetopenia isolada (sem outras alterações no hemograma) e pode aparecer em crianças, muitas vezes após uma infecção viral, e em adultos. Pode ser episódica, com remissão após o tratamento inicial (geralmente corticoide), ou se tornar crônica, exigindo acompanhamento e, às vezes, tratamento contínuo.
3. Medicamentos
Vários remédios podem reduzir as plaquetas, seja por afetar a medula, seja por provocar uma reação imune. Entre os mais citados estão a heparina, alguns antibióticos, anticonvulsivantes, anti-inflamatórios e o quinino. Nunca suspenda um medicamento por conta própria — converse com o médico que o prescreveu.
4. Deficiência de vitamina B12 ou de ácido fólico
A medula óssea precisa de vitamina B12 e ácido fólico para produzir células sanguíneas. A falta dessas vitaminas pode reduzir plaquetas, glóbulos vermelhos e brancos ao mesmo tempo. Esse mecanismo se relaciona com alguns tipos de anemia, e a correção da deficiência costuma normalizar os valores.
5. Doenças do fígado e baço aumentado
O baço normalmente armazena parte das plaquetas. Em doenças como a cirrose, o baço pode aumentar de tamanho (esplenomegalia) e reter plaquetas em excesso, deixando menos delas circulando no sangue. O fígado doente também produz menos uma substância importante para a produção de plaquetas chamada trombopoietina.
6. Consumo excessivo de álcool
O álcool em grande quantidade tem efeito tóxico direto sobre a medula óssea e reduz a produção de plaquetas, além de contribuir para doenças do fígado. A redução ou suspensão do consumo costuma melhorar o quadro.
7. Doenças da medula óssea
Condições que afetam diretamente a “fábrica” de células do sangue — como leucemias, linfomas, mielodisplasia e o efeito da quimioterapia — podem diminuir a produção de plaquetas. Nesses casos, é comum haver também alterações em glóbulos vermelhos e brancos, e a investigação com um hematologista é essencial.
8. Gravidez
Uma leve queda das plaquetas é comum e geralmente benigna no fim da gestação (a chamada plaquetopenia gestacional). Em algumas situações, porém, pode indicar condições que exigem acompanhamento, como a pré-eclâmpsia e a síndrome HELLP. Por isso, o pré-natal inclui a avaliação das plaquetas.
9. Doenças autoimunes
Doenças como o lúpus e a síndrome antifosfolípide podem provocar a destruição das plaquetas pelo sistema imunológico de maneira secundária, muitas vezes junto de outros sintomas, como dores nas articulações e alterações na pele.
Sintomas de plaquetas baixas
Muita gente com plaquetopenia leve não sente absolutamente nada e só descobre em um exame de rotina. Quando surgem, os sintomas costumam estar ligados a sangramentos:

- Petéquias: pequenos pontinhos vermelhos ou arroxeados na pele, especialmente nas pernas.
- Hematomas (“roxos”) fáceis, que aparecem sem batidas ou por traumas leves.
- Sangramento na gengiva ao escovar os dentes.
- Sangramento no nariz (epistaxe) frequente ou difícil de parar.
- Menstruação muito intensa ou prolongada.
- Sangue na urina ou nas fezes.
- Cortes que demoram a parar de sangrar.
Quando se preocupar: sinais de alerta
Procure atendimento médico com urgência se você tiver plaquetas baixas e apresentar qualquer um destes sinais:

- Sangramento que não para, mesmo com pressão no local.
- Sangue na urina, nas fezes ou no vômito.
- Dor de cabeça forte e súbita, confusão mental, alteração na fala ou na visão (podem indicar sangramento mais grave).
- Petéquias ou hematomas surgindo rapidamente, principalmente acompanhados de febre.
- Sangramento após uma queda ou batida na cabeça.
Mesmo sem esses sinais, um resultado de plaquetas baixas deve ser sempre mostrado ao seu médico em consulta para correta avaliação e interpretação.
Como é feito o diagnóstico
O primeiro passo é confirmar o resultado. Às vezes, o próprio tubo de coleta (com o anticoagulante EDTA- tampa roxa) faz as plaquetas se aglomerarem, dando uma contagem falsamente baixa — é a chamada pseudoplaquetopenia. Por isso, o médico pode pedir a repetição do hemograma, às vezes com um tubo diferente.
Confirmada a plaquetopenia, a investigação leva em conta o restante do hemograma, os seus sintomas, os medicamentos em uso e o histórico de saúde. Dependendo do caso, podem ser solicitados exames complementares e, quando necessário, a avaliação de um hematologista.
Tratamento: depende da causa
Não existe um tratamento único para plaquetas baixas — o objetivo é tratar a causa. Alguns exemplos: numa virose como a dengue, o foco é hidratação e acompanhamento até a recuperação; na PTI, podem ser usados medicamentos que reduzem a destruição das plaquetas; se um remédio for o responsável, ele pode ser substituído; e deficiências de vitaminas são corrigidas com reposição. Casos graves, com risco de sangramento, podem exigir tratamento hospitalar.
Dá para aumentar as plaquetas naturalmente?
Não há um alimento “milagroso” que aumente as plaquetas rapidamente. O melhor que você pode fazer é cuidar da causa e adotar hábitos que ajudam a medula a trabalhar bem: manter uma alimentação equilibrada (incluindo fontes de vitamina B12 e ácido fólico), evitar o excesso de álcool e não usar medicamentos por conta própria. Enquanto as plaquetas estiverem baixas em valores significativos, também é prudente evitar esportes de contato e o uso de anti-inflamatórios sem orientação, pois eles aumentam o risco de sangramento.
Leia também: Trombose: sintomas, causas e quando procurar um hematologista.
Perguntas frequentes (FAQ)
Plaquetas baixas é sempre grave? Não. A maioria dos casos é leve e passageira, muitas vezes ligada a infecções virais ou a medicamentos. A gravidade depende de quão baixa está a contagem e da causa por trás dela.
Qual valor de plaquetas é considerado perigoso? O risco de sangramento espontâneo aumenta bastante quando as plaquetas ficam abaixo de 20.000 por µL. Ainda assim, cada caso deve ser avaliado individualmente por um médico.
Dengue baixa as plaquetas? Sim. A queda das plaquetas é uma das alterações mais típicas da dengue, e por isso ela é monitorada durante a doença. Os valores costumam se recuperar após a fase aguda.
Estresse pode causar plaquetas baixas? O estresse isolado não costuma ser a causa direta da plaquetopenia. As causas mais comuns são infecções, medicamentos, questões imunológicas e doenças do fígado ou da medula.
Plaquetas baixas impedem cirurgia? Podem exigir cuidados extras. Muitos procedimentos pedem uma contagem mínima de plaquetas para reduzir o risco de sangramento, o que é avaliado caso a caso pela equipe médica.
Quanto tempo as plaquetas levam para normalizar? Depende da causa. Em viroses, costuma ser questão de dias a poucas semanas após a recuperação. Em condições crônicas, o acompanhamento é mais prolongado.
Sobre o autor
Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.
Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.
Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.
CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590
Plaquetas baixas e coagulograma alterado são coisas diferentes — e um coagulograma normal não afasta problema de coagulação: veja coagulograma alterado.
Aviso importante
As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.
Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento de um profissional de saúde. Se você recebeu um resultado de plaquetas baixas, converse com o seu médico. Em caso de sangramento importante, procure um serviço de emergência.
Referências
- Manual MSD (Versão Saúde para a Família) — Considerações gerais sobre a trombocitopenia
- Manual MSD (Versão Saúde para a Família) — Trombocitopenia imune (PTI)
- Cleveland Clinic — Thrombocytopenia: Symptoms, Stages & Treatment
- NHLBI (National Institutes of Health) — Thrombocytopenia — Platelet Disorders
- American Academy of Family Physicians (AAFP) — Thrombocytopenia: Evaluation and Management
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: julho de 2026 | Acompanhe conteúdos sobre hematologia no Instagram @drhenriquepecegohemato ou saiba mais sobre o autor · LinkedIn · X: @henriquepecego.

