
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
Poucas frases assustam tanto um paciente quanto ouvir do médico que ele “vai precisar de um transplante de medula óssea”. A palavra “transplante” traz medo, e a expressão “medula óssea” costuma ser confundida com a medula espinhal, aquela da coluna vertebral. Como hematologista que dedica sua rotina a esse tratamento, escrevi este guia para desfazer confusões e explicar, em linguagem clara, o que é o transplante de medula óssea, para quem ele serve, como funciona na prática, quais são os riscos e — talvez o mais importante para você que quer ajudar — como se tornar um doador. Vamos com calma, do começo.
O que é a medula óssea?
A medula óssea é um tecido macio, parecido com uma “esponja”, que fica dentro dos ossos — principalmente na bacia, no esterno e nos ossos longos. Ela não tem nada a ver com a medula espinhal (o cordão de nervos que passa dentro da coluna). A medula óssea é, na verdade, a “fábrica de sangue” do corpo.

É lá que nascem as células-tronco hematopoéticas, células-mãe capazes de se transformar nos três tipos de células do sangue:
- os glóbulos vermelhos (hemácias), que carregam oxigênio;
- os glóbulos brancos (leucócitos), que defendem o corpo contra infecções;
- as plaquetas, que ajudam o sangue a coagular e estancar sangramentos.
Quando essa fábrica adoece — seja por um câncer do sangue, seja porque ela para de produzir células —, todo o organismo sente. É justamente aí que o transplante entra em cena.
O que é o transplante de medula óssea?
O transplante de medula óssea (TMO) — nome mais moderno e preciso: transplante de células-tronco hematopoéticas — é um tratamento que substitui a medula doente ou destruída por células-tronco saudáveis. O objetivo é “reiniciar” a fábrica de sangue, permitindo que ela volte a produzir células normais.
Uma imagem que costumo usar com meus pacientes: é como trocar a “semente” que dá origem a todo o sangue. Recebemos células-tronco novas, elas se instalam dentro dos ossos e, com o tempo, passam a produzir sangue saudável. Ao contrário do que muita gente imagina, na maioria dos casos não há cirurgia: as células-tronco são infundidas na veia, como uma transfusão.
Tipos de transplante de medula óssea

Existem dois grandes tipos de transplante, e entender a diferença ajuda muito a compreender o próprio tratamento.
Transplante autólogo
No transplante autólogo, o próprio paciente é o doador. Suas células-tronco saudáveis são coletadas antes do tratamento, congeladas e depois devolvidas a ele. É como fazer um “backup” das próprias células. Esse tipo é muito usado em doenças como o mieloma múltiplo e alguns linfomas. Como as células são do próprio paciente, não há risco de rejeição nem de doença do enxerto contra hospedeiro (que explico mais adiante).
Transplante alogênico
No transplante alogênico, as células-tronco vêm de outra pessoa, o doador. É necessário que doador e paciente sejam compatíveis, ou seja, que tenham marcadores genéticos parecidos (o chamado sistema HLA). Esse tipo pode ser:
- Aparentado: o doador é um familiar, geralmente um irmão. Cada irmão tem cerca de 25% de chance de ser totalmente compatível.
- Não aparentado: quando não há familiar compatível, procura-se um doador voluntário nos bancos de doadores, como o REDOME, no Brasil. É aqui que a doação de desconhecidos salva vidas.
- Haploidêntico: um tipo de transplante em que o doador é parcialmente compatível — normalmente pai, mãe ou filho, que compartilham “metade” da compatibilidade. Avanços recentes tornaram esse transplante muito mais seguro e ampliaram as chances de encontrar um doador para quase todos os pacientes.
Para quais doenças o transplante é indicado?
O transplante de medula óssea é indicado em uma série de doenças do sangue, algumas cancerosas e outras não. Entre as principais indicações estão:
- Leucemias agudas e crônicas (câncer que se origina na própria medula óssea);
- Linfomas (Hodgkin e não-Hodgkin), sobretudo quando voltam após o tratamento inicial — inclusive formas avançadas de linfoma cutâneo;
- Mieloma múltiplo;
- Anemia aplásica grave, quando a medula simplesmente para de produzir células — um tipo de anemia diferente das mais comuns;
- Síndromes mielodisplásicas;
- Algumas doenças genéticas, como a anemia falciforme grave, as talassemias e certas imunodeficiências.
A decisão de indicar o transplante é sempre individual. Ela depende do tipo e do estágio da doença, da idade, do estado geral de saúde e da existência de um doador compatível. Muitas dessas doenças começam a ser suspeitadas em um exame simples, como o hemograma — por isso, entender seus resultados faz diferença.
Como funciona o transplante, passo a passo

Explico o processo em etapas para ficar mais fácil de acompanhar. Ele varia conforme o caso, mas costuma seguir esta sequência.
1. Mobilização e coleta das células-tronco
Antes de qualquer coisa, é preciso obter as células-tronco que serão transplantadas. No transplante autólogo elas vêm do próprio paciente; no alogênico, do doador. Na maioria dos casos hoje, elas são retiradas do sangue — mas, para isso, primeiro precisam sair de dentro dos ossos.
É aí que entra a mobilização: durante alguns dias, a pessoa recebe injeções de um medicamento chamado fator de crescimento (G-CSF), que estimula a medula a “liberar” as células-tronco para a corrente sanguínea. Com as células circulando no sangue, faz-se a coleta por aférese: o sangue é retirado por um braço, ou por um cateter venoso calibroso na veia femural, passa por uma máquina que separa apenas as células-tronco e retorna para o corpo continuamente. É uma sessão de cerca de 4 horas, sem cirurgia e em geral sem internação.
Em algumas situações, a coleta é feita de outra forma: a punção da medula na região da bacia (nunca da coluna), em centro cirúrgico e sob anestesia. As células colhidas podem ser usadas logo em seguida ou congeladas até o dia do transplante — é o que acontece, por exemplo, no transplante autólogo.
2. Preparo e condicionamento
Antes de receber as células novas, o paciente passa pelo condicionamento: sessões de quimioterapia e, às vezes, radioterapia. Esse preparo tem dois objetivos — destruir as células doentes que ainda restam e “abrir espaço” na medula para que as novas células se instalem. É uma fase de tratamento intensa e que exige uma série de cuidados específicos.
3. Infusão das células-tronco
No dia do transplante — chamado de “dia zero” —, as células-tronco são infundidas na veia, como uma transfusão de sangue. Não é uma cirurgia. Pela corrente sanguínea, essas células ligam o “GPS” e assim sabem o caminho e migram sozinhas para dentro dos ossos.
4. Pega (enxertia)
Instaladas na medula, as células começam a se multiplicar e a produzir sangue novo. Esse momento em que a nova medula “começa a funcionar” é chamado de pega ou enxertia. Costuma acontecer entre dia +10 após a infusão das células nos transplantes autólogos e um pouco mais tardiamente nos transplantes alogênicos. Enquanto a pega não ocorre, o paciente fica com as defesas muito baixas e precisa de cuidados rigorosos contra infecções incluindo transfusões frequentes.
5. Recuperação
A recuperação é gradual e pode levar meses. O sistema imunológico se reconstrói aos poucos, e por um bom tempo o paciente segue em acompanhamento próximo, com exames frequentes e, muitas vezes, medicamentos para prevenir complicações. Paciência e apoio da família são parte fundamental do tratamento.
Quais são os riscos do transplante?
Ser honesto sobre os riscos faz parte do meu trabalho. O transplante é um tratamento potente, capaz de curar, mas não é isento de complicações. As principais são:
- Infecções: com as defesas baixas, mesmo germes comuns podem ser perigosos. Por isso há tanto cuidado com higiene, isolamento, antifúngicos e antivirais profiláticos e antibióticos de maneira preemptiva.
- Doença do enxerto contra hospedeiro (DECH): exclusiva do transplante alogênico. Acontece quando as células de defesa do doador reconhecem o corpo do paciente como “estranho” e o atacam. Pode afetar pele, intestino e fígado, e é controlada com medicamentos que regulam a imunidade.
- Toxicidade do condicionamento: a quimioterapia e a radioterapia podem causar efeitos colaterais como náuseas, feridas na boca e queda temporária das células do sangue.
Vale um lembrete importante: os riscos existem, mas as equipes de transplante são treinadas para preveni-los e tratá-los. Os avanços das últimas décadas tornaram o procedimento muito mais seguro do que era no passado.
Doação de medula óssea: como se tornar um doador pelo REDOME

Aqui está a parte em que você pode salvar uma vida. Quando um paciente não tem doador na família, ele depende de um voluntário compatível. No Brasil, esse encontro acontece pelo REDOME — Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea, coordenado pelo INCA. É o terceiro maior registro de doadores do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e Alemanha.
Quem pode se cadastrar
Segundo os critérios atuais do REDOME:
- Ter entre 18 e 35 anos no momento do cadastro (a idade máxima para o cadastro passou de 55 para 35 anos em 2021, por decisão do Ministério da Saúde);
- Estar em bom estado geral de saúde;
- Não ter doenças que impeçam a doação (como doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue, doenças do sangue ou câncer em atividade).
Uma vez cadastrado, o doador permanece disponível no registro até os 60 anos de idade.
Como é o cadastro
O cadastro é simples e rápido. Você comparece a um hemocentro (posto de coleta), preenche uma ficha com seus dados e autoriza a coleta de uma pequena amostra de sangue. Desse sangue é feita a tipagem HLA, o “código genético” de compatibilidade, que é registrado no banco do REDOME. Pronto: seus dados passam a ser cruzados com os de pacientes que precisam de transplante em todo o país.
E se eu for compatível?
A compatibilidade entre pessoas sem parentesco é rara — pode ser de 1 em dezenas de milhares. Por isso, quanto mais gente cadastrada, maiores as chances de um paciente encontrar seu doador. Se um dia você for chamado, novos exames confirmam a compatibilidade e a doação é agendada.
Como é feita a doação? É segura?
Esta é a dúvida que mais afasta as pessoas — e quase sempre por desinformação. A doação é feita de uma de duas formas, e ambas são seguras:
- Aférese (coleta pelo sangue), a forma mais comum hoje: por alguns dias antes da coleta, o doador recebe um medicamento que faz as células-tronco “saírem” da medula e circularem no sangue. No dia, o sangue é retirado de um braço ou por um cateter na veia femural, passa por uma máquina que separa as células-tronco e retorna para o corpo continuamente. Dura cerca de 4 horas e não exige internação.
- Punção óssea, sob anestesia: com uma agulha, o médico retira células da medula da região da bacia (nunca da coluna) manualmente na quantidade especificada pelo peso do paciente receptor. O procedimento leva cerca de algumas horas, é feito em centro cirúrgico com anestesia e o doador costuma sentir apenas um desconforto local por alguns dias.
Um ponto que faço questão de reforçar: a medula do doador se regenera em poucas semanas, e ele volta rapidamente à vida normal. Os riscos para o doador são mínimos. Doar medula é um gesto seguro e generoso — literalmente, uma segunda chance de vida para alguém.
Leia também: Leucemia: o que é, tipos, sintomas e tratamentos (guia completo).
Quer entender a doença que mais leva ao transplante autólogo? Leia o guia sobre mieloma múltiplo: sintomas, diagnóstico e tratamento.
Perguntas frequentes sobre transplante de medula óssea
Transplante de medula óssea é uma cirurgia?
Na maioria dos casos, não. As células-tronco são infundidas na veia, como uma transfusão. O que exige cuidado é todo o preparo (condicionamento) e a recuperação, feitos com internação.
Medula óssea é a mesma coisa que medula espinhal?
Não, e essa é a confusão mais comum. A medula óssea fica dentro dos ossos e produz o sangue. A medula espinhal fica dentro da coluna e faz parte do sistema nervoso. A doação não tem nenhuma relação com a coluna.
Doar medula óssea dói ou é perigoso?
Os riscos são mínimos. Na aférese, o doador pode sentir sintomas parecidos com os de uma gripe por causa do medicamento. Na punção, há desconforto local por alguns dias. Não há sequelas, e a medula se regenera.
Quanto tempo demora para se recuperar de um transplante?
A pega da nova medula costuma ocorrer em 2 a 4 semanas, mas a recuperação completa do sistema imunológico leva meses. O acompanhamento médico continua por bastante tempo após a alta.
Qualquer pessoa pode ser meu doador?
Não. É preciso compatibilidade genética (HLA). Irmãos têm cerca de 25% de chance de compatibilidade. Quando não há doador na família, procura-se um voluntário no REDOME ou nos bancos de doadores internacionais.
O transplante cura a doença?
Em muitos casos, sim — o transplante pode ser curativo. As chances dependem da doença, do estágio, da idade e da compatibilidade do doador. Seu hematologista é quem pode explicar o cenário no seu caso específico. Uma excessão é o transplante autólogo no mieloma múltiplo que tem como objetivo controlar a doença e aumentar a sobrevida livre da doença.
Leia também
- Anemia: sintomas, tipos e quando se preocupar
- Como entender seu hemograma
- Ferritina baixa: sintomas, causas e como aumentar
Sobre o autor
Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.
Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.
Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.
CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590
No período em que a medula ainda não pegou, a febre é o sinal que não pode esperar. O que fazer em casa e o que acontece no hospital está no texto sobre neutropenia febril.
Aviso importante
As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.
Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.
Referências consultadas
- Instituto Nacional de Câncer (INCA) — Transplante de Medula Óssea e Doação de Medula.
- REDOME — Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea: Quem Pode Doar e Como se Tornar um Doador.
- Ministério da Saúde (gov.br) — Alteração da Idade Limite para Cadastro de Doadores de Medula Óssea.
- Manual MSD — Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas.
- American Society of Hematology — Blood Stem Cell and Bone Marrow Transplant.
- Mayo Clinic — Bone Marrow Transplant: Overview.
- ABRALE (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia) — Transplante de Medula Óssea: Tipos e Indicações.
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: julho;2026 | Acompanhe conteúdos sobre hematologia no Instagram @drhenriquepecegohemato ou saiba mais [sobre o autor] · LinkedIn · X: @henriquepecego.

