Doação de medula óssea: como se cadastrar no REDOME
Conteúdo escrito e revisado por médico hematologista · Revisado em 4 de setembro de 2026Como este conteúdo é feito
Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista

Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato

Vou começar desfazendo o mito que trava a maior parte das pessoas: não se enfia agulha na coluna para doar medula óssea.

A confusão vem do nome. A frase do INCA resolve de uma vez: “enquanto a medula óssea é um tecido líquido que ocupa a cavidade dos ossos, a medula espinhal é formada de tecido nervoso que ocupa o espaço dentro da coluna vertebral”. São duas coisas diferentes. A doação envolve a primeira, e a coleta é feita no osso do quadril, na região pélvica posterior. A agulha nunca chega perto da coluna.

Mais que isso: hoje, a maioria das doações nem envolve punção óssea. É feita por uma máquina, com o doador acordado, deitado, vendo o celular, e ele volta às atividades no dia seguinte.

Este texto explica como funciona o REDOME, quem pode se cadastrar, o que acontece se você for chamado, e por que atualizar o cadastro importa tanto quanto se cadastrar.


O que é o REDOME

O REDOME, Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea, foi criado em 1993. O primeiro transplante com doador não aparentado no país aconteceu em 1995.

Alguns números que mostram o tamanho do que se construiu aqui:

  • Quase 6 milhões de doadores cadastrados
  • Terceiro maior registro do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha
  • E o dado que mais me orgulha: o maior registro do mundo com financiamento exclusivamente público
  • 112 hemocentros parceiros, em todos os estados
  • Cerca de 5.100 transplantes intermediados até 2023
  • Cerca de 70% dos doadores compatíveis encontrados para pacientes brasileiros vêm do próprio REDOME

No mundo todo, os registros somam mais de 42 milhões de doadores, e eles conversam entre si. Um brasileiro pode receber medula de um alemão, e vice-versa.


Quem pode se cadastrar

As regras são objetivas:

  • Ter entre 18 e 35 anos no momento do cadastro
  • Estar em bom estado geral de saúde
  • Levar um documento oficial com foto

Impedem o cadastro: câncer, doenças incapacitantes, doenças autoimunes e doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue.

Um ponto que gera muita dúvida: o limite de 35 anos é para entrar no cadastro. Uma vez dentro, você permanece e pode doar até os 60 anos. Ou seja, quem se cadastra aos 25 tem 35 anos de janela.

A idade mais baixa não é burocracia: doadores mais jovens produzem células-tronco em maior quantidade e com melhor capacidade de reconstituir a medula do receptor, e isso se traduz em resultado melhor no transplante.


Como é o cadastro: leva menos de meia hora

O processo é simples e gratuito:

  1. Vá ao hemocentro mais próximo da sua cidade
  2. Preencha e assine o termo de consentimento
  3. São coletados 5 mL de sangue: menos que um exame de rotina
  4. Esse sangue é usado para a tipagem HLA, que é a “impressão digital” do seu sistema imunológico
  5. Seus dados e sua tipagem entram no banco

E aí você espera. Com honestidade: o contato pode levar alguns anos ou nunca acontecer. Não é fracasso do cadastro. É a matemática da compatibilidade, que vem a seguir.


Por que a compatibilidade é tão difícil

O sistema HLA é um conjunto de marcadores na superfície das células que o sistema imunológico usa para distinguir o que é seu do que é estranho. No transplante, esses marcadores precisam bater entre doador e receptor, e a combinação possível é astronômica.

Os números:

  • Entre irmãos, a chance de compatibilidade total é de 25%: um em quatro. É por isso que a primeira busca é sempre dentro da família
  • Entre pessoas não aparentadas, a chance é de aproximadamente 1 em 100 mil
  • No transplante haploidêntico, feito com um doador que compartilha metade dos marcadores (pai, mãe, filho, muitas vezes um irmão), a compatibilidade é de cerca de 50%

Aquele “1 em 100 mil” é exatamente o motivo de o registro precisar de milhões de pessoas. Cada cadastro novo não aumenta um pouco a chance de alguém: aumenta a chance de todo mundo que está na fila.

E funciona: a busca preliminar encontra algum doador possível em até 88% dos casos, e ao final 64% dos pacientes têm um doador confirmado.

O REDOME em números: quase 6 milhões de doadores, terceiro maior registro do mundo, chance de 1 em 100 mil entre não aparentados e 25% entre irmãos
O REDOME em números e por que cada cadastro conta.

Fui chamado. O que acontece agora?

Se você aparecer como compatível com algum paciente, o hemocentro entra em contato. A partir daí vêm exames complementares para confirmar a compatibilidade, avaliação clínica completa e a decisão sobre qual das duas formas de coleta será usada.

Vale dizer o óbvio, porque nem sempre é óbvio: a doação é voluntária do começo ao fim. Você pode desistir. Mas peço atenção a um detalhe importante: a partir de um certo ponto do processo, o paciente já recebeu quimioterapia em dose alta para “esvaziar” a própria medula, e passa a depender daquelas células para sobreviver. Desistir nessa fase tem consequências graves. Por isso a conversa e a decisão firme acontecem antes desse ponto.


As duas formas de doar

1. Aférese de sangue periférico: hoje é a maioria

Nesta forma, nada de centro cirúrgico. Funciona assim:

  • Durante 5 dias antes da coleta, o doador recebe uma medicação que estimula a medula a jogar células-tronco na corrente sanguínea
  • No dia da coleta, sangue sai por uma veia de um braço, passa por uma máquina que separa as células-tronco, e o restante volta pelo outro braço. Se as veias do braço não foram boas para o procedimento pode ser necessário a colocação de um cateter em uma veia femural., nesse caso é necessário em geral 1 dia de internação.
  • O procedimento dura de 3 a 4 horas, com o doador acordado o tempo todo
  • Sem internação
  • Volta às atividades no dia seguinte

Os efeitos colaterais existem e vale conhecê-los para não se assustar: durante os dias da medicação, é comum sentir dor no corpo parecida com a de uma gripe, além de formigamento, câimbra e náusea. Passa depois da coleta.

2. Punção da crista ilíaca: o osso do quadril

Esta é a forma clássica, ainda usada em algumas situações:

  • Feita em centro cirúrgico, com anestesia peridural ou geral
  • Dura em torno de 90 minutos
  • Internação de 24 horas
  • Não fica cicatriz: apenas a marca de três a cinco furos de agulha na região do quadril
  • O incômodo é de intensidade média e dura de 2 a 14 dias. A descrição oficial é boa: parece uma queda
  • Retorno às atividades habituais após cerca de uma semana

Em ambos os casos, o organismo do doador está recuperado em cerca de duas semanas. A medula repõe tudo o que foi retirado. Você não fica com menos nada.

Existe ainda uma terceira via, que não depende de doador adulto: o sangue de cordão umbilical, coletado no parto e armazenado em bancos públicos.

As duas formas de doar medula óssea: aférese de sangue periférico e punção do osso do quadril, e por que a agulha nunca entra na coluna
As duas formas de doar e o mito da agulha na coluna.

Atualizar o cadastro: a parte que quase ninguém faz

Esta seção é curta, e é possivelmente a mais útil do texto para quem já se cadastrou.

Você se cadastrou aos 22 anos, com o telefone da época, no endereço dos seus pais. Hoje tem 34, mudou de cidade duas vezes e trocou de número três. Se aparecer um paciente compatível com você amanhã, ninguém consegue te encontrar.

O REDOME é explícito: doadores com dados atualizados são localizados mais rapidamente. E rapidez, aqui, é diferença de vida. O tempo médio de localização de um doador caiu de 7 dias em 2015 para 3 dias hoje, mas isso só vale para quem pode ser encontrado.

A atualização é feita pelo site do REDOME, leva poucos minutos, e vale a pena repetir sempre que você mudar de telefone, e-mail ou endereço.

Se você tem entre 18 e 60 anos e já é cadastrado: atualize hoje. É o gesto de menor esforço e maior impacto deste texto inteiro.


Para quem serve o transplante

O transplante de medula óssea é indicado em doenças em que a medula deixou de funcionar corretamente ou foi tomada por células doentes. Entre elas:

Nem todo paciente com essas doenças vai para o transplante: a indicação depende do risco da doença, da idade, das condições clínicas e da resposta ao tratamento anterior.

O que fazer se você já é doador cadastrado no REDOME: atualizar os dados de contato para poder ser localizado
O que fazer hoje, em ordem de esforço.

Os mitos que mais atrapalham

Trabalho com transplante de medula óssea todos os dias, e essas cinco frases aparecem sempre:

  • “Enfiam uma agulha na coluna.” Não. Medula óssea e medula espinhal são tecidos diferentes, em lugares diferentes. A punção é no osso do quadril, e a maioria das doações hoje nem tem punção nenhuma.
  • “Posso ficar paralítico.” Não existe risco de paralisia, porque nada é feito perto da medula espinhal.
  • “Vou ficar sem medula.” A medula repõe tudo. Em cerca de duas semanas o organismo está recuperado.
  • “Doar enfraquece minha imunidade para sempre.” Não. A recuperação é completa.
  • “Se eu me cadastrar, sou obrigado a doar.” Não. A doação é voluntária. O compromisso ético é decidir com firmeza antes do ponto em que o paciente já iniciou o condicionamento.

Doação de medula não é doação de sangue

Vale separar, porque as duas se misturam na cabeça das pessoas, inclusive porque o cadastro é feito no hemocentro.

Doação de sangueCadastro no REDOME
Idade16 a 69 anos, conforme as regras vigentesCadastro de 18 a 35; doação até 60
FrequênciaVárias vezes por anoUma vez na vida, a doação em si pode nunca acontecer
DestinatárioQualquer paciente compatível pelo tipo sanguíneoUm paciente específico, compatível pelo HLA
O que é coletadoSangueCélulas-tronco (aférese) ou medula (punção do quadril)

Um detalhe que quase ninguém sabe: o tipo sanguíneo não precisa ser igual no transplante de medula. Quem manda é o HLA. Depois do transplante, o receptor pode inclusive passar a ter o tipo sanguíneo do doador.


O que fazer hoje, em ordem de esforço

  1. Se você já é cadastrado: atualize seus dados no site do REDOME. Leva minutos.
  2. Se você tem de 18 a 35 anos e não é cadastrado: procure o hemocentro da sua cidade. São 5 mL de sangue.
  3. Se você está fora da faixa de idade: divida esta informação com quem está dentro dela. O gargalo do REDOME não é falta de vontade: é falta de informação correta.
  4. Se você vai ter um filho: pergunte sobre a doação de sangue de cordão umbilical para banco público.

Perguntas frequentes

Doar medula óssea dói?

Depende da forma. Na aférese, que é a mais usada hoje, o desconforto vem da medicação dos 5 dias anteriores e lembra dores de gripe. Na punção do quadril, feita sob anestesia, o incômodo depois é de intensidade média, dura de 2 a 14 dias e é descrito como parecido com uma queda.

A agulha entra na coluna?

Não, nunca. A medula óssea é um tecido líquido dentro da cavidade dos ossos; a medula espinhal é tecido nervoso dentro da coluna vertebral. A coleta, quando é por punção, é feita no osso do quadril, na região pélvica posterior. Não há risco de paralisia.

Qual é a chance de eu ser chamado?

A chance de compatibilidade entre pessoas não aparentadas é de aproximadamente 1 em 100 mil. O contato pode levar anos ou nunca acontecer, e isso é normal. É justamente por essa raridade que o registro precisa de milhões de cadastrados.

Tenho mais de 35 anos. Ainda posso me cadastrar?

Não. O cadastro é permitido dos 18 aos 35 anos. Quem já está cadastrado permanece ativo e pode doar até os 60. Se você está fora da faixa, a contribuição possível é divulgar a informação correta para quem está dentro dela.

Meu irmão precisa de transplante. Qual a chance de eu ser compatível?

Entre irmãos, a chance de compatibilidade total é de 25%: um em quatro. Por isso a busca sempre começa pela família. Quando não há doador compatível entre os irmãos, procura-se no REDOME e nos registros internacionais, e existe ainda a alternativa do transplante haploidêntico, com um doador que compartilha metade dos marcadores.

Preciso ter o mesmo tipo sanguíneo do paciente?

Não. O que precisa ser compatível é o HLA, não o tipo sanguíneo. Inclusive, depois do transplante, o receptor pode passar a ter o tipo sanguíneo do doador.

Quanto tempo demora para eu me recuperar?

Na aférese, o retorno às atividades é no dia seguinte. Na punção do quadril, cerca de uma semana. Em ambos os casos, o organismo está totalmente recuperado em torno de duas semanas: a medula repõe tudo o que foi coletado.

Posso desistir depois de aceitar?

A doação é voluntária e você pode recusar. Mas existe um ponto do processo a partir do qual o paciente já recebeu quimioterapia em dose alta para preparar a medula e passa a depender das suas células para sobreviver. É por isso que a decisão definitiva é tomada, com toda a informação, antes desse momento.

Já sou cadastrado há anos. Preciso fazer alguma coisa?

Sim: atualizar seus dados de contato no site do REDOME. Doadores com dados atualizados são localizados mais rapidamente, e um telefone antigo pode significar que ninguém consiga te encontrar quando um paciente compatível aparecer.


Aviso importante

Este texto tem finalidade educativa e informativa. Critérios de cadastro e de doação são definidos pelo Ministério da Saúde e pelo INCA e podem ser atualizados. Confirme sempre no hemocentro da sua cidade ou nos canais oficiais do REDOME. A indicação de transplante de medula óssea é individual e depende da avaliação da equipe assistente.


Referências

Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista — CRM-RJ 89269-6 · RQE 26589 e RQE 26590. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · Facebook · LinkedIn · X: @henriquepecego

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