
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
Vou começar desfazendo o mito que trava a maior parte das pessoas: não se enfia agulha na coluna para doar medula óssea.
A confusão vem do nome. A frase do INCA resolve de uma vez: “enquanto a medula óssea é um tecido líquido que ocupa a cavidade dos ossos, a medula espinhal é formada de tecido nervoso que ocupa o espaço dentro da coluna vertebral”. São duas coisas diferentes. A doação envolve a primeira, e a coleta é feita no osso do quadril, na região pélvica posterior. A agulha nunca chega perto da coluna.
Mais que isso: hoje, a maioria das doações nem envolve punção óssea. É feita por uma máquina, com o doador acordado, deitado, vendo o celular, e ele volta às atividades no dia seguinte.
Este texto explica como funciona o REDOME, quem pode se cadastrar, o que acontece se você for chamado, e por que atualizar o cadastro importa tanto quanto se cadastrar.
O que é o REDOME
O REDOME, Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea, foi criado em 1993. O primeiro transplante com doador não aparentado no país aconteceu em 1995.
Alguns números que mostram o tamanho do que se construiu aqui:
- Quase 6 milhões de doadores cadastrados
- Terceiro maior registro do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha
- E o dado que mais me orgulha: o maior registro do mundo com financiamento exclusivamente público
- 112 hemocentros parceiros, em todos os estados
- Cerca de 5.100 transplantes intermediados até 2023
- Cerca de 70% dos doadores compatíveis encontrados para pacientes brasileiros vêm do próprio REDOME
No mundo todo, os registros somam mais de 42 milhões de doadores, e eles conversam entre si. Um brasileiro pode receber medula de um alemão, e vice-versa.
Quem pode se cadastrar
As regras são objetivas:
- Ter entre 18 e 35 anos no momento do cadastro
- Estar em bom estado geral de saúde
- Levar um documento oficial com foto
Impedem o cadastro: câncer, doenças incapacitantes, doenças autoimunes e doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue.
Um ponto que gera muita dúvida: o limite de 35 anos é para entrar no cadastro. Uma vez dentro, você permanece e pode doar até os 60 anos. Ou seja, quem se cadastra aos 25 tem 35 anos de janela.
A idade mais baixa não é burocracia: doadores mais jovens produzem células-tronco em maior quantidade e com melhor capacidade de reconstituir a medula do receptor, e isso se traduz em resultado melhor no transplante.
Como é o cadastro: leva menos de meia hora
O processo é simples e gratuito:
- Vá ao hemocentro mais próximo da sua cidade
- Preencha e assine o termo de consentimento
- São coletados 5 mL de sangue: menos que um exame de rotina
- Esse sangue é usado para a tipagem HLA, que é a “impressão digital” do seu sistema imunológico
- Seus dados e sua tipagem entram no banco
E aí você espera. Com honestidade: o contato pode levar alguns anos ou nunca acontecer. Não é fracasso do cadastro. É a matemática da compatibilidade, que vem a seguir.
Por que a compatibilidade é tão difícil
O sistema HLA é um conjunto de marcadores na superfície das células que o sistema imunológico usa para distinguir o que é seu do que é estranho. No transplante, esses marcadores precisam bater entre doador e receptor, e a combinação possível é astronômica.
Os números:
- Entre irmãos, a chance de compatibilidade total é de 25%: um em quatro. É por isso que a primeira busca é sempre dentro da família
- Entre pessoas não aparentadas, a chance é de aproximadamente 1 em 100 mil
- No transplante haploidêntico, feito com um doador que compartilha metade dos marcadores (pai, mãe, filho, muitas vezes um irmão), a compatibilidade é de cerca de 50%
Aquele “1 em 100 mil” é exatamente o motivo de o registro precisar de milhões de pessoas. Cada cadastro novo não aumenta um pouco a chance de alguém: aumenta a chance de todo mundo que está na fila.
E funciona: a busca preliminar encontra algum doador possível em até 88% dos casos, e ao final 64% dos pacientes têm um doador confirmado.

Fui chamado. O que acontece agora?
Se você aparecer como compatível com algum paciente, o hemocentro entra em contato. A partir daí vêm exames complementares para confirmar a compatibilidade, avaliação clínica completa e a decisão sobre qual das duas formas de coleta será usada.
Vale dizer o óbvio, porque nem sempre é óbvio: a doação é voluntária do começo ao fim. Você pode desistir. Mas peço atenção a um detalhe importante: a partir de um certo ponto do processo, o paciente já recebeu quimioterapia em dose alta para “esvaziar” a própria medula, e passa a depender daquelas células para sobreviver. Desistir nessa fase tem consequências graves. Por isso a conversa e a decisão firme acontecem antes desse ponto.
As duas formas de doar
1. Aférese de sangue periférico: hoje é a maioria
Nesta forma, nada de centro cirúrgico. Funciona assim:
- Durante 5 dias antes da coleta, o doador recebe uma medicação que estimula a medula a jogar células-tronco na corrente sanguínea
- No dia da coleta, sangue sai por uma veia de um braço, passa por uma máquina que separa as células-tronco, e o restante volta pelo outro braço. Se as veias do braço não foram boas para o procedimento pode ser necessário a colocação de um cateter em uma veia femural., nesse caso é necessário em geral 1 dia de internação.
- O procedimento dura de 3 a 4 horas, com o doador acordado o tempo todo
- Sem internação
- Volta às atividades no dia seguinte
Os efeitos colaterais existem e vale conhecê-los para não se assustar: durante os dias da medicação, é comum sentir dor no corpo parecida com a de uma gripe, além de formigamento, câimbra e náusea. Passa depois da coleta.
2. Punção da crista ilíaca: o osso do quadril
Esta é a forma clássica, ainda usada em algumas situações:
- Feita em centro cirúrgico, com anestesia peridural ou geral
- Dura em torno de 90 minutos
- Internação de 24 horas
- Não fica cicatriz: apenas a marca de três a cinco furos de agulha na região do quadril
- O incômodo é de intensidade média e dura de 2 a 14 dias. A descrição oficial é boa: parece uma queda
- Retorno às atividades habituais após cerca de uma semana
Em ambos os casos, o organismo do doador está recuperado em cerca de duas semanas. A medula repõe tudo o que foi retirado. Você não fica com menos nada.
Existe ainda uma terceira via, que não depende de doador adulto: o sangue de cordão umbilical, coletado no parto e armazenado em bancos públicos.

Atualizar o cadastro: a parte que quase ninguém faz
Esta seção é curta, e é possivelmente a mais útil do texto para quem já se cadastrou.
Você se cadastrou aos 22 anos, com o telefone da época, no endereço dos seus pais. Hoje tem 34, mudou de cidade duas vezes e trocou de número três. Se aparecer um paciente compatível com você amanhã, ninguém consegue te encontrar.
O REDOME é explícito: doadores com dados atualizados são localizados mais rapidamente. E rapidez, aqui, é diferença de vida. O tempo médio de localização de um doador caiu de 7 dias em 2015 para 3 dias hoje, mas isso só vale para quem pode ser encontrado.
A atualização é feita pelo site do REDOME, leva poucos minutos, e vale a pena repetir sempre que você mudar de telefone, e-mail ou endereço.
Se você tem entre 18 e 60 anos e já é cadastrado: atualize hoje. É o gesto de menor esforço e maior impacto deste texto inteiro.
Para quem serve o transplante
O transplante de medula óssea é indicado em doenças em que a medula deixou de funcionar corretamente ou foi tomada por células doentes. Entre elas:
- Leucemias agudas: mieloide e linfoblástica
- Leucemias crônicas: mieloide e linfocítica, em situações selecionadas
- Linfomas recaídos ou refratários
- Mieloma múltiplo
- Mielodisplasias e mielofibrose
- Anemia aplástica grave
- Anemia falciforme e talassemia em casos selecionados
- Algumas imunodeficiências e doenças metabólicas hereditárias
Nem todo paciente com essas doenças vai para o transplante: a indicação depende do risco da doença, da idade, das condições clínicas e da resposta ao tratamento anterior.

Os mitos que mais atrapalham
Trabalho com transplante de medula óssea todos os dias, e essas cinco frases aparecem sempre:
- “Enfiam uma agulha na coluna.” Não. Medula óssea e medula espinhal são tecidos diferentes, em lugares diferentes. A punção é no osso do quadril, e a maioria das doações hoje nem tem punção nenhuma.
- “Posso ficar paralítico.” Não existe risco de paralisia, porque nada é feito perto da medula espinhal.
- “Vou ficar sem medula.” A medula repõe tudo. Em cerca de duas semanas o organismo está recuperado.
- “Doar enfraquece minha imunidade para sempre.” Não. A recuperação é completa.
- “Se eu me cadastrar, sou obrigado a doar.” Não. A doação é voluntária. O compromisso ético é decidir com firmeza antes do ponto em que o paciente já iniciou o condicionamento.
Doação de medula não é doação de sangue
Vale separar, porque as duas se misturam na cabeça das pessoas, inclusive porque o cadastro é feito no hemocentro.
| Doação de sangue | Cadastro no REDOME | |
|---|---|---|
| Idade | 16 a 69 anos, conforme as regras vigentes | Cadastro de 18 a 35; doação até 60 |
| Frequência | Várias vezes por ano | Uma vez na vida, a doação em si pode nunca acontecer |
| Destinatário | Qualquer paciente compatível pelo tipo sanguíneo | Um paciente específico, compatível pelo HLA |
| O que é coletado | Sangue | Células-tronco (aférese) ou medula (punção do quadril) |
Um detalhe que quase ninguém sabe: o tipo sanguíneo não precisa ser igual no transplante de medula. Quem manda é o HLA. Depois do transplante, o receptor pode inclusive passar a ter o tipo sanguíneo do doador.
O que fazer hoje, em ordem de esforço
- Se você já é cadastrado: atualize seus dados no site do REDOME. Leva minutos.
- Se você tem de 18 a 35 anos e não é cadastrado: procure o hemocentro da sua cidade. São 5 mL de sangue.
- Se você está fora da faixa de idade: divida esta informação com quem está dentro dela. O gargalo do REDOME não é falta de vontade: é falta de informação correta.
- Se você vai ter um filho: pergunte sobre a doação de sangue de cordão umbilical para banco público.
Perguntas frequentes
Doar medula óssea dói?
Depende da forma. Na aférese, que é a mais usada hoje, o desconforto vem da medicação dos 5 dias anteriores e lembra dores de gripe. Na punção do quadril, feita sob anestesia, o incômodo depois é de intensidade média, dura de 2 a 14 dias e é descrito como parecido com uma queda.
A agulha entra na coluna?
Não, nunca. A medula óssea é um tecido líquido dentro da cavidade dos ossos; a medula espinhal é tecido nervoso dentro da coluna vertebral. A coleta, quando é por punção, é feita no osso do quadril, na região pélvica posterior. Não há risco de paralisia.
Qual é a chance de eu ser chamado?
A chance de compatibilidade entre pessoas não aparentadas é de aproximadamente 1 em 100 mil. O contato pode levar anos ou nunca acontecer, e isso é normal. É justamente por essa raridade que o registro precisa de milhões de cadastrados.
Tenho mais de 35 anos. Ainda posso me cadastrar?
Não. O cadastro é permitido dos 18 aos 35 anos. Quem já está cadastrado permanece ativo e pode doar até os 60. Se você está fora da faixa, a contribuição possível é divulgar a informação correta para quem está dentro dela.
Meu irmão precisa de transplante. Qual a chance de eu ser compatível?
Entre irmãos, a chance de compatibilidade total é de 25%: um em quatro. Por isso a busca sempre começa pela família. Quando não há doador compatível entre os irmãos, procura-se no REDOME e nos registros internacionais, e existe ainda a alternativa do transplante haploidêntico, com um doador que compartilha metade dos marcadores.
Preciso ter o mesmo tipo sanguíneo do paciente?
Não. O que precisa ser compatível é o HLA, não o tipo sanguíneo. Inclusive, depois do transplante, o receptor pode passar a ter o tipo sanguíneo do doador.
Quanto tempo demora para eu me recuperar?
Na aférese, o retorno às atividades é no dia seguinte. Na punção do quadril, cerca de uma semana. Em ambos os casos, o organismo está totalmente recuperado em torno de duas semanas: a medula repõe tudo o que foi coletado.
Posso desistir depois de aceitar?
A doação é voluntária e você pode recusar. Mas existe um ponto do processo a partir do qual o paciente já recebeu quimioterapia em dose alta para preparar a medula e passa a depender das suas células para sobreviver. É por isso que a decisão definitiva é tomada, com toda a informação, antes desse momento.
Já sou cadastrado há anos. Preciso fazer alguma coisa?
Sim: atualizar seus dados de contato no site do REDOME. Doadores com dados atualizados são localizados mais rapidamente, e um telefone antigo pode significar que ninguém consiga te encontrar quando um paciente compatível aparecer.
Aviso importante
Este texto tem finalidade educativa e informativa. Critérios de cadastro e de doação são definidos pelo Ministério da Saúde e pelo INCA e podem ser atualizados. Confirme sempre no hemocentro da sua cidade ou nos canais oficiais do REDOME. A indicação de transplante de medula óssea é individual e depende da avaliação da equipe assistente.
Referências
- Quem somos. REDOME / INCA.
- Doadores. REDOME / INCA.
- Atualize seu cadastro. REDOME / INCA.
- Perguntas frequentes: doação de medula óssea. INCA.
- Perguntas frequentes: transplante de medula óssea. INCA.
- REDOME celebra 30 anos do primeiro transplante. INCA.
- Quem pode ser doador de medula óssea. Ministério da Saúde.
- Como é feita a doação de medula óssea. Ministério da Saúde.
- Transplante de medula óssea. Biblioteca Virtual em Saúde, Ministério da Saúde.
- REDOME lembra a importância da atualização do cadastro. INCA.
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista — CRM-RJ 89269-6 · RQE 26589 e RQE 26590. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · Facebook · LinkedIn · X: @henriquepecego

