
Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato
Linfoma de Hodgkin é um câncer do sistema linfático que nasce nos linfócitos B e tem uma marca registrada: a célula de Reed-Sternberg, vista ao microscópio. Ele carrega também outra característica notável — está entre os cânceres com as maiores taxas de cura da medicina, mesmo em estágios avançados. A doença costuma se manifestar como uma íngua que cresce e não desaparece, e atinge principalmente adultos jovens, na faixa dos 20 anos, e pessoas acima dos 55. Neste guia completo, você vai entender, de forma simples, o que é o linfoma de Hodgkin, quais são os sinais de alerta, como ele é diagnosticado e por que o seu tratamento é uma das grandes histórias de sucesso da oncologia. Ele faz parte do nosso guia completo sobre linfoma.
O que é o linfoma de Hodgkin?
O sistema linfático é a rede de defesa do corpo: vasos, linfonodos (as “ínguas”), baço e timo, por onde circulam os linfócitos. No linfoma de Hodgkin, um linfócito B sofre uma transformação e dá origem a uma célula anormal, grande e característica: a célula de Reed-Sternberg. Encontrá-la na biópsia é o que define a doença e a separa de todos os outros linfomas.
Outra particularidade importante: o linfoma de Hodgkin costuma se espalhar de forma ordenada e previsível, de uma cadeia de linfonodos para a vizinha — diferente do linfoma não Hodgkin, que pode surgir em vários pontos. Essa previsibilidade ajuda no planejamento do tratamento.
A doença tem dois picos de idade: adultos jovens (15 a 35 anos) e pessoas acima dos 55. Entre os fatores associados estão a infecção pelo vírus Epstein-Barr (o vírus da mononucleose), quedas importantes da imunidade e, raramente, história familiar. Na maioria dos casos, porém, não há uma causa identificável — e ter tido mononucleose não significa que a pessoa vá desenvolver a doença.
Subtipos: clássico e predomínio linfocitário
O linfoma de Hodgkin se divide em dois grandes grupos:
- Linfoma de Hodgkin clássico. Representa cerca de 9 em cada 10 casos e inclui quatro formas (esclerose nodular, a mais comum; celularidade mista; rico em linfócitos; e depleção linfocitária). É o grupo com o tratamento mais bem estabelecido.
- Predomínio linfocitário nodular. É raro, cresce muito devagar e se comporta quase como um linfoma indolente. O tratamento costuma ser diferente do clássico — às vezes, apenas acompanhamento ou abordagens mais leves.
Sintomas do linfoma de Hodgkin: sinais de alerta
O sinal mais comum do linfoma de Hodgkin é uma íngua indolor que cresce e não some, geralmente no pescoço, acima da clavícula ou nas axilas. Além disso, valem atenção os chamados sintomas B e outros sinais:
- Íngua persistente e indolor por mais de duas a três semanas.
- Febre sem infecção que explique.
- Suores noturnos intensos, que molham a roupa de cama.
- Perda de peso inexplicada (mais de 10% em seis meses).
- Coceira no corpo persistente, às vezes intensa.
- Cansaço fora do comum.
- Tosse, falta de ar ou dor no peito, quando há linfonodos aumentados no tórax (mediastino) — comum nos jovens.
- Um sinal curioso e raro: dor na íngua após ingerir bebida alcoólica.
Esses sintomas também aparecem em muitas situações benignas. No entanto, quando persistem, a investigação é fundamental — e, no Hodgkin, diagnosticar cedo significa tratar com menos intensidade.

Como o linfoma de Hodgkin é diagnosticado
O diagnóstico do linfoma de Hodgkin segue uma sequência bem definida:
- Biópsia do linfonodo (preferencialmente excisional). Retira-se o linfonodo inteiro para análise. É o exame que confirma a doença, ao revelar a célula de Reed-Sternberg.
- Imuno-histoquímica. Identifica os marcadores típicos das células (como CD30 e CD15) e define o subtipo.
- PET-CT. É o exame de imagem padrão: mostra todas as áreas comprometidas e define o estágio (sistema Ann Arbor, de I a IV, com “A” ou “B” conforme os sintomas).
- Exames de sangue e avaliação geral. Hemograma, provas inflamatórias (como VHS), função dos órgãos e avaliação do coração e do pulmão — importantes porque alguns quimioterápicos exigem esse cuidado.
Com o estágio definido, o hematologista separa a doença em inicial favorável, inicial desfavorável ou avançada — e é isso que orienta a intensidade do tratamento.

Tratamento do linfoma de Hodgkin
Aqui está a melhor parte da história. O tratamento do linfoma de Hodgkin é um dos mais bem-sucedidos da oncologia, e hoje é adaptado pela resposta ao PET-CT — ou seja, o próprio exame mostra se dá para reduzir (ou se é preciso intensificar) o tratamento. As principais estratégias são:
- Quimioterapia (esquema ABVD). É a base clássica. Na doença inicial favorável, bastam poucos ciclos (2 a 4), às vezes seguidos de radioterapia dirigida; na inicial desfavorável, 4 a 6 ciclos.
- PET-CT no meio do caminho (terapia adaptada). Após 2 ciclos, o exame reavalia a resposta e permite personalizar o restante do tratamento.
- Doença avançada. Usam-se combinações mais potentes, como o brentuximabe vedotina + AVD ou o nivolumabe + AVD, que incorporaram a terapia-alvo e a imunoterapia à primeira linha.
- Radioterapia de campo envolvido. Aplicada em áreas selecionadas, em doses e volumes cada vez menores, para reduzir efeitos em longo prazo.
- Recaída ou doença resistente. Quimioterapia em altas doses seguida de transplante autólogo de medula óssea, além de brentuximabe vedotina (anticorpo dirigido ao CD30) e dos inibidores de checkpoint (nivolumabe, pembrolizumabe) — imunoterapias com excelente atividade no Hodgkin.
Com essas estratégias, a grande maioria dos pacientes alcança a cura — inclusive boa parte dos que recaem.

A VHS entra no linfoma de Hodgkin como fator prognóstico, e não como exame de diagnóstico. Para entender o que ela realmente mede — e por que um número alto isolado explica pouco —, veja o artigo sobre VHS alto e PCR alta.
Prognóstico: o que esperar
O linfoma de Hodgkin está entre os cânceres com melhores resultados da medicina. Nos estágios iniciais, as taxas de cura ultrapassam 90%; mesmo na doença avançada, a maioria dos pacientes fica livre da doença. Por isso, uma parte crescente do cuidado se volta para depois da cura: acompanhar efeitos tardios do tratamento (coração, pulmões, tireoide e segundos tumores) e preservar a fertilidade e a qualidade de vida — temas que o hematologista discute antes mesmo de começar. Em resumo: diagnóstico no tempo certo, tratamento completo e seguimento em longo prazo.
Quando procurar um hematologista
Procure avaliação especializada quando houver:
- uma íngua indolor que cresce e não desaparece após duas a três semanas, sobretudo no pescoço ou acima da clavícula;
- febre, suores noturnos ou perda de peso sem explicação;
- coceira persistente ou tosse e falta de ar sem causa aparente.
Quanto mais cedo o diagnóstico do linfoma de Hodgkin, menos intenso tende a ser o tratamento — e maiores as chances de cura com menos efeitos em longo prazo.
Leia também: o guia completo sobre linfoma, o linfoma não Hodgkin e o nosso guia sobre leucemia.
Perguntas frequentes sobre o linfoma de Hodgkin
Linfoma de Hodgkin tem cura?
Sim — e com frequência. Ele está entre os cânceres mais curáveis: nos estágios iniciais, as taxas de cura passam de 90%, e mesmo na doença avançada a maioria dos pacientes fica livre da doença. Até nas recaídas há boas opções, como o transplante autólogo e as imunoterapias.
O que é a célula de Reed-Sternberg?
É uma célula grande e anormal, derivada dos linfócitos B, encontrada na biópsia. Ela é a marca registrada do linfoma de Hodgkin — identificá-la é o que confirma o diagnóstico e diferencia a doença dos linfomas não Hodgkin.
Qual a diferença entre linfoma de Hodgkin e não Hodgkin?
O Hodgkin tem a célula de Reed-Sternberg, espalha-se de forma ordenada e tem tratamento muito padronizado, com altas taxas de cura. O não Hodgkin reúne dezenas de subtipos, com comportamentos e tratamentos variados. A biópsia é o que distingue um do outro.
Quem tem mais risco de linfoma de Hodgkin?
A doença tem dois picos: adultos jovens (15 a 35 anos) e pessoas acima dos 55. Infecção prévia pelo vírus Epstein-Barr, imunidade comprometida e história familiar aumentam um pouco o risco — mas a maioria dos casos surge sem causa identificável.
Como o linfoma de Hodgkin é tratado?
A base é a quimioterapia (como o esquema ABVD), guiada pelo PET-CT, às vezes com radioterapia dirigida. Na doença avançada, combinações com brentuximabe ou nivolumabe entraram na primeira linha. Nas recaídas: transplante autólogo e imunoterapia.
O tratamento afeta a fertilidade?
Pode afetar, dependendo do esquema e da dose — por isso, a preservação da fertilidade (congelamento de sêmen ou óvulos) deve ser discutida antes de iniciar o tratamento, sempre que possível. É uma conversa de rotina com o hematologista, especialmente nos pacientes jovens.
Aviso: este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Portanto, não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento com um médico. Se você tem sintomas ou dúvidas sobre seus exames, procure um hematologista.
Sobre o autor
Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.
Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.
Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.
CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590
O linfoma de Hodgkin está entre as causas menos comuns de eosinófilos altos no exame — bem atrás de parasitose, alergia e medicamentos.
Aviso importante
As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.
Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.
Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.
Referências
- Diretriz da NCCN para pacientes: Hodgkin Lymphoma (NCCN Guidelines for Patients®, 2025).
- Na American Cancer Society: Hodgkin Lymphoma.
- No Instituto Nacional de Câncer (INCA): Linfoma de Hodgkin.
- Na American Society of Hematology (ASH): Lymphoma.
Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: agosto de 2026. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · LinkedIn · X: @henriquepecego.

