Mielofibrose: sintomas, diagnóstico e tratamento
Conteúdo escrito e revisado por médico hematologista · Revisado em 31 de agosto de 2026Como este conteúdo é feito
Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista

Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato

De todas as neoplasias mieloproliferativas, a mielofibrose é a que mais assusta quem recebe o diagnóstico — e é também a única em que existe, hoje, um tratamento com potencial de cura. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é justamente essa combinação que torna a conversa com o hematologista tão decisiva.

Neste artigo sobre mielofibrose primária eu explico o que acontece na medula óssea, por que o baço cresce, o que os escores de risco realmente medem, como funcionam os remédios disponíveis e, com números, quem se beneficia do transplante de medula óssea e quem não se beneficia.


O que é a mielofibrose

A mielofibrose é uma doença crônica da medula óssea em que uma célula-tronco alterada estimula a formação de tecido cicatricial dentro da medula — a fibrose que dá nome à doença. Aos poucos, a medula de quem tem mielofibrose deixa de conseguir produzir células do sangue com eficiência.

Na mielofibrose, o organismo então recorre a um plano B: outros órgãos, principalmente o baço e o fígado, voltam a produzir células sanguíneas como faziam na vida fetal. Isso se chama hematopoese extramedular, e é a razão pela qual o baço aumenta tanto na mielofibrose. Não é o baço que está doente; é ele que está assumindo um trabalho que não é mais dele.


Mielofibrose primária e secundária

Quando a mielofibrose é a primeira doença a aparecer, chama-se mielofibrose primária. Ela também pode surgir como evolução de uma policitemia vera ou de uma trombocitemia essencial que existiam antes — nesse caso é a mielofibrose secundária, ou pós-policitemia vera e pós-trombocitemia essencial.

Segundo a NCCN, entre 10% e 20% de todos os casos de mielofibrose começam como uma dessas duas doenças. A distinção entre as duas formas de mielofibrose não é detalhe de classificação: os escores que estimam prognóstico na forma primária não servem para as secundárias, que têm um escore próprio.


A fase pré-fibrótica

Existe uma fase inicial da mielofibrose, chamada pré-fibrótica, em que a medula já tem as alterações características mas ainda quase não tem cicatriz. A diretriz da British Society for Haematology descreve que ela tem quadro mais brando e melhor sobrevida que a mielofibrose franca.

Essa fase inicial da mielofibrose costuma ser confundida com trombocitemia essencial, e a diferença importa: comparada à trombocitemia essencial, a fase pré-fibrótica cursa com leucócitos e plaquetas mais altos, hemoglobina mais baixa, LDH mais alta e baço maior — e tem desfechos piores. É por isso que a biópsia de medula óssea entra no diagnóstico de plaquetas altas persistentes.


Os sintomas da mielofibrose

Os sintomas da mielofibrose vêm de três fontes diferentes: a anemia, o baço aumentado e as substâncias inflamatórias que a doença faz circular.

Existe um questionário validado para os sintomas da mielofibrose, o MPN-10, que o hematologista usa para medir a carga de sintomas em consulta. Ele pontua dez itens de 0 a 10, e vale conhecer a lista porque ela nomeia coisas que o paciente muitas vezes não associa à doença:

  • Fadiga
  • Saciedade precoce — encher-se com pouca comida
  • Desconforto abdominal
  • Inatividade
  • Dificuldade de concentração
  • Sudorese noturna
  • Coceira no corpo
  • Dor óssea
  • Febre
  • Perda de peso

Uma observação de honestidade: eu não encontrei, nas fontes de referência, a frequência exata de cada um desses sintomas em percentual. Prefiro descrevê-los sem inventar número. O que a literatura registra com clareza é que mais da metade dos pacientes já tem anemia no momento do diagnóstico.


Por que o baço cresce, e o que isso causa

A esplenomegalia é o achado físico mais característico da mielofibrose: até 80% dos pacientes com mielofibrose têm o baço palpável. Em séries de pacientes encaminhados para transplante, 73% tinham o baço a mais de 5 centímetros abaixo do rebordo costal, e um quarto tinha aumento maciço.

O baço grande da mielofibrose não dói por si só. Ele incomoda porque empurra o que está ao redor: causa saciedade precoce, desconforto no lado esquerdo, falta de ar e tosse.

E existe uma orientação prática que quase ninguém recebe: quem tem o baço muito aumentado deve evitar esportes de contato. Um trauma abdominal nessa situação pode romper o órgão, com sangramento importante. É uma conversa de dois minutos na consulta que evita um problema grave.


Como é feito o diagnóstico da mielofibrose

O diagnóstico de mielofibrose exige biópsia de medula óssea — não há como fechá-lo apenas com exames de sangue. São três critérios maiores, todos necessários:

  • Biópsia com proliferação e atipia dos megacariócitos, acompanhada de fibrose de grau 2 ou 3 numa escala que vai de 0 a 3.
  • Presença de mutação em JAK2, CALR ou MPL, ou de outro marcador de clonalidade.
  • Exclusão de leucemia mieloide crônica, policitemia vera, trombocitemia essencial e síndromes mielodisplásicas.

Além disso, o diagnóstico de mielofibrose exige pelo menos um critério menor: anemia sem outra explicação, leucócitos acima de 11 mil, baço aumentado, LDH elevada ou leucoeritroblastose — a presença de células jovens, imaturas, circulando no sangue.

Na fase pré-fibrótica, o critério da medula muda: a fibrose é de grau menor que 2. É a única diferença real entre as duas fases no papel, e é o que separa dois prognósticos bem distintos.


As mutações da mielofibrose

Segundo a diretriz da British Society for Haematology, na mielofibrose primária JAK2 aparece em 50% a 60% dos casos, CALR em 15% a 35% e MPL em 6% a 9%. Cerca de um em cada dez pacientes não tem nenhuma das três — e esse perfil triplo-negativo é considerado de risco mais alto.

Duas informações genéticas mudam bastante o prognóstico da mielofibrose: a mutação CALR do tipo 1 é favorável, e há um grupo de cinco genes de alto risco molecular — ASXL1, SRSF2, EZH2, IDH1 e IDH2 — cuja presença reduz a expectativa de vida, especialmente quando mais de um está alterado.

Infográfico: o que acontece na medula na mielofibrose, a hematopoese extramedular e as frequências de JAK2, CALR e MPL

Os escores de risco: o que eles realmente medem

Na mielofibrose, nenhuma decisão importante é tomada sem antes classificar o risco. Os escores combinam idade, grau de anemia, contagem de leucócitos, presença de células jovens no sangue, sintomas gerais e, nas versões mais novas, alterações genéticas e cromossômicas.

As sobrevidas medianas na mielofibrose descritas pela diretriz britânica dão a dimensão do que está em jogo:

EscoreBaixoIntermediário-1Intermediário-2Alto
DIPSSnão atingida14,2 anos4 anos1,5 ano
DIPSS-Plus15,4 anos6,5 anos2,9 anos1,3 ano
MYSEC-PM (secundárias)não atingida9,3 anos4,4 anos2,0 anos

O MIPSS70+ v2.0, usado abaixo dos 70 anos e que incorpora a genética, vai de 16,4 anos no grupo de baixo risco a 1,8 ano no de risco muito alto.

Duas leituras honestas desses números. A primeira: eles são medianas de grupos, não previsões individuais — metade das pessoas vive mais do que o valor da tabela. A segunda: o escore não é uma sentença, é uma ferramenta de decisão. Ele existe para responder uma pergunta prática, que é quem deve ser encaminhado para transplante e quando.

Infográfico: os escores de risco da mielofibrose (DIPSS, DIPSS-Plus, MIPSS70+ v2.0 e MYSEC-PM) e as sobrevidas medianas

Como se trata a mielofibrose

Quem tem mielofibrose de baixo risco e nenhum sintoma pode ficar apenas em acompanhamento, com consultas e exames regulares. Tratar quem não precisa não melhora nada e adiciona efeitos colaterais.

Os inibidores de JAK, e por que são quatro

Os quatro inibidores de JAK usados na mielofibrose bloqueiam a mesma via de sinalização e reduzem o baço e os sintomas. A diferença entre eles está em quem consegue tomar cada um, e isso depende do hemograma:

  • Ruxolitinibe — o mais estabelecido. Cerca de 80% dos pacientes reduzem o volume do baço, e de 40% a 50% têm queda de metade da carga de sintomas em torno de oito semanas. O benefício sobre a sobrevida é descrito como modesto.
  • Fedratinibe — entra em quem não respondeu ou não tolerou o ruxolitinibe. Exige dosar tiamina antes de começar e mensalmente nos três primeiros meses, pelo risco de encefalopatia de Wernicke.
  • Momelotinibe — é o inibidor de JAK da anemia. Ele reduz a produção de hepcidina, o hormônio que regula o ferro, e com isso facilita a fabricação de glóbulos vermelhos. É o único que trata baço, sintomas e anemia ao mesmo tempo.
  • Pacritinibe — é o das plaquetas muito baixas, abaixo de 50 mil, situação em que os outros não podem ser usados em dose plena.

Um aviso que todo paciente com mielofibrose em uso de ruxolitinibe precisa ouvir: nunca parar o remédio de uma vez. A retirada abrupta pode desencadear uma síndrome de resposta inflamatória sistêmica. A suspensão é sempre gradual e orientada.


O tratamento da anemia

A anemia é o problema que mais afeta a qualidade de vida na mielofibrose. As opções descritas na diretriz britânica incluem o danazol, com resposta em até 30%, os estimuladores da eritropoese, com resposta em cerca de metade dos pacientes quando a eritropoetina está baixa, além do luspatercepte e da talidomida.

A transfusão costuma ser indicada com hemoglobina em torno de 8 g/dL ou menos. Em quem transfunde muito e é candidato a transplante, entra também a quelação de ferro quando a ferritina passa de 1.000 — porque a sobrecarga de ferro piora o resultado do transplante.

Retirar o baço, ou irradiá-lo?

Na mielofibrose são opções que existem, mas com custo alto, e por isso não são rotina. A esplenectomia tem mortalidade perioperatória em torno de 9% e complicações em cerca de 30%. A radioterapia do baço reduz o tamanho em quase todos os casos, mas a resposta dura em mediana seis meses e provoca queda importante das células do sangue em cerca de 43% dos tratados.


O transplante de medula óssea na mielofibrose

Este é o ponto que mais gera dúvida, e o que eu acompanho de perto na prática. O transplante alogênico — com células de um doador — é a única terapia com potencial curativo na mielofibrose. Todo o resto controla sintomas.

Mas o transplante não é para todo mundo na mielofibrose, e a razão é aritmética: o procedimento tem risco próprio, e esse risco só se justifica quando o risco da doença é maior.

Quem é candidato

  • Pacientes com doença de risco intermediário-2 ou alto, preferencialmente até os 70 anos, devem ser avaliados para transplante.
  • No intermediário-1, a avaliação se justifica abaixo dos 65 anos quando há anemia com dependência de transfusão, mais de 2% de blastos no sangue ou alterações cromossômicas desfavoráveis.
  • Quem tem doença de baixo risco não deve transplantar. Aqui o risco do procedimento supera o da doença.
  • Acima dos 70 anos a decisão é individual, avaliando condição clínica e outras doenças — não existe corte de idade absoluto.
  • Ter blastos aumentados, ou estar em fase acelerada, não exclui o transplante.

Os resultados, com números

Existe um escore desenhado especificamente para candidatos ao transplante na mielofibrose, o MTSS, que reúne idade, condição clínica, contagens do hemograma, tipo de doador e perfil genético. Ele mostra por que a seleção do candidato decide tanto:

Grupo no MTSSSobrevida em 5 anosMortalidade não relacionada à recaída
Baixo90%10%
Intermediário77%22%
Alto50%36%
Muito alto34%57%

Note a diferença: entre o grupo de baixo risco e o de risco muito alto, a sobrevida em cinco anos cai de 90% para 34%, e a mortalidade ligada ao próprio procedimento sobe de 10% para 57%. É o mesmo transplante, feito em pessoas diferentes, com resultados quase opostos. Por isso a avaliação pré-transplante é longa e detalhada — ela não é burocracia.

O momento certo

Na mielofibrose, adiar demais custa caro. Modelos que calcularam o melhor momento a partir do diagnóstico encontraram o pico de benefício em torno de 10 meses no risco alto, 17 meses no intermediário-2 e 20 meses no intermediário-1. Na prática: em quem tem doença de risco intermediário-2 ou alto, o transplante é indicado logo; nos demais, pode esperar.

Um detalhe que faz diferença no resultado: quem tem baço muito grande trata o baço antes, em geral com um inibidor de JAK. Quem responde ao ruxolitinibe antes do transplante tem menos recaída depois. E a retirada do inibidor é feita junto com o início do condicionamento, para evitar o rebote inflamatório.

Depois do transplante por mielofibrose, o acompanhamento é molecular: pesquisa da mutação com um mês e depois a cada três meses, por pelo menos um ano. Isso não é excesso de zelo. Quando a recaída é detectada ainda no nível molecular, a infusão de linfócitos do doador consegue remissão em 88% dos casos, contra 60% quando a recaída já apareceu no hemograma. Detectar cedo dobra a chance de resgatar.

Infográfico: sobrevida em 5 anos e mortalidade do transplante na mielofibrose por categoria do escore MTSS

A mielofibrose pode virar leucemia?

Pode, e é a complicação mais temida. Numa coorte de 1.306 pacientes com mielofibrose primária publicada no Blood Cancer Journal, 149 pacientes, ou 11%, tiveram transformação para uma leucemia mieloide aguda.

Na mielofibrose, chama-se fase acelerada quando os blastos ficam entre 10% e 19%, e fase blástica quando chegam a 20% ou mais. Nessa situação, a pergunta central passa a ser se o paciente tem condições de transplante — porque sem essa possibilidade a sobrevida mediana descrita é de cerca de seis meses. Com transplante, os resultados são melhores em quem chega em remissão e em boa condição clínica.

Vale uma ressalva de método sobre esse número na mielofibrose: sites de informação ao paciente publicam números bem diferentes para essa taxa, de 9% a 20%, com janelas de tempo distintas. Optei por citar a coorte com o número de pacientes e a fonte explícita, em vez de escolher o número mais confortável.


Quando procurar atendimento com urgência

Quem tem mielofibrose deve procurar um serviço de emergência diante de:

  • Febre com neutrófilos baixos — abaixo de 1.500, e principalmente abaixo de 500. Isso é emergência, não consulta marcada.
  • Hemoglobina abaixo de 7 g/dL, ou plaquetas abaixo de 20 mil.
  • Sangramento que não para.
  • Trauma no abdome em quem tem o baço aumentado.
  • Dor abdominal intensa e súbita do lado esquerdo.
  • Falta de ar importante, dor no peito ou confusão mental.

Perguntas frequentes sobre mielofibrose

Mielofibrose tem cura?

O transplante alogênico de medula óssea é a única terapia com potencial de cura na mielofibrose. Ele não é indicado para todos: só se justifica quando o risco da doença supera o risco do procedimento, o que acontece nos grupos de risco intermediário-2 e alto. Todos os outros tratamentos controlam sintomas e melhoram a qualidade de vida, sem curar.

Mielofibrose é câncer?

Sim. A mielofibrose é uma neoplasia mieloproliferativa, um câncer do sangue de evolução crônica. Não forma tumor nem dá metástase, e o comportamento varia muito de pessoa para pessoa — de anos sem precisar de tratamento até formas que exigem conduta rápida.

Por que o baço aumenta na mielofibrose?

Porque na mielofibrose a medula fibrosada perde eficiência e o baço assume parte da produção de células do sangue, o que se chama hematopoese extramedular. Até 80% dos pacientes têm o baço palpável. O aumento causa saciedade precoce, desconforto do lado esquerdo e falta de ar, e exige evitar esportes de contato pelo risco de ruptura.

Qual a expectativa de vida na mielofibrose?

A expectativa de vida na mielofibrose depende inteiramente do grupo de risco, e a variação é enorme: pelo DIPSS, a sobrevida mediana vai de mais de 14 anos no risco intermediário-1 a cerca de um ano e meio no risco alto. São medianas de grupos, não previsões individuais — metade das pessoas vive mais do que o número da tabela. É por isso que classificar o risco é o primeiro passo depois do diagnóstico.

Qual a diferença entre mielofibrose primária e secundária?

A mielofibrose primária aparece como primeira doença. A secundária surge como evolução de uma policitemia vera ou de uma trombocitemia essencial que já existiam, e responde por 10% a 20% dos casos. A diferença é prática: as secundárias têm escore prognóstico próprio, o MYSEC-PM, porque os escores da forma primária não se aplicam a elas.

O ruxolitinibe pode ser interrompido?

Na mielofibrose, nunca de uma vez e nunca por conta própria. A parada abrupta pode desencadear uma síndrome de resposta inflamatória sistêmica, com febre, queda de pressão e piora rápida. Se for preciso suspender, a retirada é gradual e orientada pelo hematologista.

Existe algum inibidor de JAK para quem tem anemia?

Sim, na mielofibrose é o momelotinibe. Ele reduz a produção de hepcidina, hormônio que regula o ferro no organismo, e com isso melhora a anemia enquanto trata o baço e os sintomas. Para quem tem plaquetas muito baixas, abaixo de 50 mil, a opção preferida é o pacritinibe.


Aviso importante

As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.

Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.

Em caso de dúvidas procure avaliação com seu médico ou um hematologista.


Referências

Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista — CRM-RJ 89269-6. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · LinkedIn · X: @henriquepecego.

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