Neoplasias mieloproliferativas: o guia completo
Conteúdo escrito e revisado por médico hematologista · Revisado em 31 de agosto de 2026Como este conteúdo é feito
Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista

Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato

Quando o hematologista diz que o problema é uma neoplasia mieloproliferativa, a palavra que fica ecoando é sempre a mesma: neoplasia. E ela assusta, com razão. Mas as neoplasias mieloproliferativas se comportam de um jeito muito diferente do que a maioria das pessoas imagina quando ouve a palavra câncer.

Este é um artigo guia. Aqui eu explico o que são as neoplasias mieloproliferativas, quais doenças fazem parte do grupo, o que elas têm em comum, o que separa uma da outra, e o caminho que cada uma segue. De cada doença sai um link para o artigo completo dela.


O que são as neoplasias mieloproliferativas

As neoplasias mieloproliferativas são doenças crônicas em que uma célula-tronco da medula óssea sofre uma alteração genética adquirida e passa a produzir células do sangue em excesso, de forma autônoma — sem que exista um estímulo externo pedindo aquilo.

Repare nas duas partes do nome. Mielo vem da medula óssea, a fábrica do sangue. Proliferativa quer dizer que há produção em excesso. Ou seja: as neoplasias mieloproliferativas são doenças em que a fábrica trabalha demais, e não de menos. É por isso que a maioria delas aparece no hemograma como um número alto, e não baixo.

A alteração genética que dá origem às neoplasias mieloproliferativas não é herdada dos pais e não é transmitida aos filhos. Ela acontece ao longo da vida, dentro de uma única célula da medula, que então passa a se multiplicar mais do que deveria.


Quais doenças fazem parte do grupo

São quatro as principais neoplasias mieloproliferativas, e a primeira divisão que o hematologista faz é entre a que tem o cromossomo Philadelphia e as que não têm.

Leucemia mieloide crônica

É a única das neoplasias mieloproliferativas com uma alteração própria e exclusiva: o gene de fusão BCR::ABL1, produzido pelo cromossomo Philadelphia. Encontrar essa alteração fecha o diagnóstico e, ao mesmo tempo, indica o tratamento — os inibidores de tirosina quinase, que transformaram completamente o prognóstico da doença. Se a alteração não está presente, não é leucemia mieloide crônica, e o raciocínio segue para as outras.

Leia o artigo completo sobre leucemia mieloide crônica.

Policitemia vera

É a neoplasia mieloproliferativa do excesso de glóbulos vermelhos. Aparece como hemoglobina e hematócrito persistentemente altos, muitas vezes com plaquetas e leucócitos também elevados. Quase todos os pacientes têm a mutação JAK2. O tratamento se apoia em duas medidas simples e muito eficazes: sangria terapêutica para manter o hematócrito abaixo de 45% e aspirina em dose baixa.

Leia o artigo completo sobre policitemia vera — e, se a sua dúvida é o achado no exame, o artigo sobre hemoglobina e hematócrito altos.

Trombocitemia essencial

É a neoplasia mieloproliferativa do excesso de plaquetas, com contagens persistentemente acima de 450 mil. É a mais comum das descobertas por acaso, num exame de rotina, em pessoa sem sintoma nenhum. Um ponto que quase nenhum texto explica: acima de 1 milhão de plaquetas o risco deixa de ser trombose e passa a ser sangramento, por uma doença de von Willebrand adquirida.

Leia o artigo completo sobre trombocitemia essencial — e, se o que apareceu no seu exame foi a contagem alta, o artigo sobre plaquetas altas.

Mielofibrose

É a neoplasia mieloproliferativa em que a medula óssea vai sendo substituída por tecido cicatricial. Como a fábrica perde eficiência, o baço e o fígado voltam a produzir células do sangue como faziam na vida fetal — e é por isso que o baço cresce tanto. É a mais grave das quatro, e a única em que o transplante de medula óssea entra como terapia com potencial de cura.

Leia o artigo completo sobre mielofibrose.

A mielofibrose tem uma particularidade dentro do grupo das neoplasias mieloproliferativas: ela pode ser a primeira doença a aparecer, e aí se chama primária, ou pode surgir como evolução de uma policitemia vera ou de uma trombocitemia essencial que existiam antes. Segundo a NCCN, de 10% a 20% dos casos de mielofibrose começaram assim.

Infográfico: as quatro neoplasias mieloproliferativas — leucemia mieloide crônica, policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose

O que as neoplasias mieloproliferativas têm em comum

Apesar de se apresentarem de formas bem diferentes no hemograma, as neoplasias mieloproliferativas compartilham cinco características que explicam quase tudo do acompanhamento:

  • Origem única. Todas começam em uma célula-tronco da medula óssea, e não em vários lugares ao mesmo tempo.
  • Curso crônico. São doenças de anos e décadas, não de semanas. Muita gente convive com uma neoplasia mieloproliferativa por muito tempo sem que ela mude o rumo da vida.
  • Risco de trombose. É o principal problema clínico do grupo, e a razão de a aspirina aparecer no tratamento de quase todas.
  • Sintomas inflamatórios. Fadiga, coceira no corpo, sudorese noturna, saciedade precoce e perda de peso vêm das substâncias que o clone doente faz circular — não da anemia.
  • Potencial de transformação. Todas podem, com o tempo, evoluir para formas mais agressivas. A frequência varia muito entre elas.

Há ainda uma sexta característica, e é a que mais tranquiliza no consultório: as neoplasias mieloproliferativas não formam tumor e não dão metástase. Elas são doenças do sangue e da medula, e o vocabulário do câncer sólido — estádio, quimioterapia agressiva, cirurgia — em geral não se aplica.


As mutações que definem o grupo

Hoje o diagnóstico das neoplasias mieloproliferativas passa obrigatoriamente pela genética. Não pela genética que se herda, mas pela pesquisa de mutações adquiridas no sangue ou na medula.

Na leucemia mieloide crônica o marcador é o BCR::ABL1, e ele é exclusivo dela. Nas outras três neoplasias mieloproliferativas, as chamadas Philadelphia-negativas, procuram-se três mutações: JAK2, CALR e MPL.

DoençaJAK2CALRMPL
Policitemia verapraticamente 100%
Trombocitemia essencial62%24%4%
Mielofibrose primária50 a 60%15 a 35%6 a 9%

Cerca de 1 em cada 10 pacientes com trombocitemia essencial ou mielofibrose não tem nenhuma das três. É o perfil chamado triplo-negativo, que exige investigação adicional e, na mielofibrose, indica risco mais alto.

A mutação encontrada não serve só para confirmar o diagnóstico das neoplasias mieloproliferativas — ela muda a conduta. Na trombocitemia essencial, quem tem CALR costuma ter plaquetas mais altas e cerca de metade do risco de trombose de quem tem JAK2. E na mielofibrose, a CALR do tipo 1 é um marcador favorável, enquanto um grupo de cinco outros genes — ASXL1, SRSF2, EZH2, IDH1 e IDH2 — pesa contra.

Leia o artigo completo sobre a mutação JAK2.

Infográfico: frequência das mutações JAK2, CALR, MPL e BCR::ABL1 em cada neoplasia mieloproliferativa

Como o diagnóstico é feito

O caminho até o diagnóstico de uma neoplasia mieloproliferativa costuma ter quatro etapas, e ele quase sempre começa num hemograma pedido por outro motivo.

  1. Confirmar que a alteração é persistente. Um único exame alterado não define nada. Repete-se o hemograma, em geral com cerca de 30 dias de intervalo.
  2. Excluir as causas reativas, que são a grande maioria. Plaqueta alta é reativa em 80% a 90% das vezes: inflamação, infecção, ferro baixo, pós-operatório. Hemoglobina alta costuma ser desidratação, tabagismo ou apneia do sono. Só depois de afastar isso é que se pensa em neoplasia mieloproliferativa.
  3. Pesquisar as mutações — BCR::ABL1, JAK2, CALR e MPL, conforme o quadro.
  4. Biópsia de medula óssea, que mostra como a fábrica está funcionando e, na mielofibrose, o grau de cicatriz. É o exame que diferencia doenças que no sangue se parecem muito.

Vale dizer com clareza: nenhuma das neoplasias mieloproliferativas se diagnostica só com exame de sangue. A biópsia de medula é parte do processo, e é ela que separa, por exemplo, uma trombocitemia essencial de uma mielofibrose em fase inicial — duas doenças com hemogramas parecidos e prognósticos bem diferentes.

Se o que trouxe você até aqui foi um exame alterado, comece pelo guia completo do hemograma.


Os três riscos que o hematologista acompanha

Todo o acompanhamento das neoplasias mieloproliferativas se organiza em torno de três riscos. Entender quais são ajuda a entender por que o médico pede o que pede.

Trombose

É o risco mais imediato, e o mais frequente. O sangue com células em excesso circula pior, e o clone doente deixa as plaquetas e o endotélio mais reativos. Por isso a aspirina em dose baixa e o controle do hematócrito aparecem tão cedo no tratamento das neoplasias mieloproliferativas.

Um detalhe importante: na trombocitemia essencial o risco de trombose não é definido pela contagem de plaquetas, e sim pela idade, pela trombose prévia e pela presença da mutação JAK2. Plaqueta muito alta e risco de trombose não são a mesma coisa. Leia mais sobre trombose.

Transformação

É o risco de longo prazo. Uma neoplasia mieloproliferativa pode evoluir para mielofibrose ou, mais raramente, para uma leucemia aguda. A frequência varia muito conforme a doença: na trombocitemia essencial a transformação leucêmica é de cerca de 3% em 15 anos, enquanto numa coorte de 1.306 pacientes com mielofibrose primária ela ocorreu em 11%.

É por causa desse risco que o acompanhamento das neoplasias mieloproliferativas não termina quando o hemograma normaliza. Ele continua, com consultas e exames periódicos, por tempo indeterminado.

Carga de sintomas

É o risco mais subestimado, e o que mais afeta o dia a dia. Existe um questionário validado, o MPN-10, que o hematologista usa em consulta para medir dez sintomas de 0 a 10: fadiga, saciedade precoce, desconforto abdominal, inatividade, dificuldade de concentração, sudorese noturna, coceira no corpo, dor óssea, febre e perda de peso.

Vale conhecer essa lista, porque ela nomeia queixas que o paciente costuma não associar à doença — e que, sem serem nomeadas, não entram na conversa nem na decisão de tratamento.

Infográfico: trombose, transformação e carga de sintomas — os três riscos acompanhados nas neoplasias mieloproliferativas

Como se tratam as neoplasias mieloproliferativas

Não existe um tratamento único para as neoplasias mieloproliferativas. O que existe é uma lógica comum: tratar o risco, não o número. Quem tem doença de baixo risco e nenhum sintoma pode ficar apenas em acompanhamento, e isso não é descaso — é conduta correta. Tratar quem não precisa não melhora nada e adiciona efeitos colaterais.

  • Leucemia mieloide crônica — inibidores de tirosina quinase, tomados por via oral, com monitorização molecular periódica.
  • Policitemia vera — sangria terapêutica para manter o hematócrito abaixo de 45%, aspirina em dose baixa e, no alto risco, um medicamento citorredutor.
  • Trombocitemia essencial — aspirina conforme a mutação e o perfil de risco; citorredução reservada ao alto risco, em geral com hidroxiureia.
  • Mielofibrose — inibidores de JAK para baço e sintomas, tratamento específico da anemia e, nos grupos de risco intermediário-2 e alto, avaliação para transplante.

O transplante de medula óssea merece uma frase à parte. Entre as neoplasias mieloproliferativas Philadelphia-negativas ele só entra na mielofibrose, e mesmo lá não é para todos: o procedimento tem risco próprio, que só se justifica quando o risco da doença é maior.


Neoplasia mieloproliferativa é câncer?

Sim, do ponto de vista técnico. As neoplasias mieloproliferativas são classificadas como cânceres do sangue, porque há um clone de células que se multiplica de forma autônoma. Essa é a resposta honesta, e eu não gosto de contorná-la.

Mas a resposta completa precisa de um segundo parágrafo. As neoplasias mieloproliferativas não formam tumor, não dão metástase, a maioria é descoberta por acaso em exame de rotina e muita gente convive com elas por décadas com tratamento simples e vida inteiramente normal. É um câncer que se parece muito mais com uma doença crônica controlada do que com o que a palavra evoca.

Quando alguém me pergunta isso no consultório, minha resposta costuma ser essa: o nome é pesado, a doença em geral não é. E o que define o rumo não é o rótulo, é a categoria de risco.


Quando procurar atendimento com urgência

Quem tem uma neoplasia mieloproliferativa deve procurar um serviço de emergência diante de:

  • Sinais de trombose — dor e inchaço em uma perna, dor no peito, falta de ar súbita, perda de força ou da fala.
  • Febre com neutrófilos baixos, principalmente abaixo de 500.
  • Sangramento que não para, ou plaquetas abaixo de 20 mil.
  • Hemoglobina abaixo de 7 g/dL.
  • Trauma no abdome em quem tem o baço aumentado.
  • Dor abdominal intensa e súbita, principalmente do lado esquerdo.

Perguntas frequentes sobre neoplasias mieloproliferativas

Quais são as neoplasias mieloproliferativas?

As quatro principais neoplasias mieloproliferativas são a leucemia mieloide crônica, a policitemia vera, a trombocitemia essencial e a mielofibrose. A leucemia mieloide crônica é a única com o gene BCR::ABL1, produzido pelo cromossomo Philadelphia; as outras três são chamadas Philadelphia-negativas e se associam às mutações JAK2, CALR e MPL.

Neoplasia mieloproliferativa tem cura?

O transplante de medula óssea é a única terapia com potencial de cura, e entre as neoplasias mieloproliferativas ele só é indicado na mielofibrose de risco intermediário-2 ou alto. Nas demais, o tratamento controla a doença muito bem por muitos anos, sem eliminá-la — o que, na prática, permite uma vida normal.

Neoplasia mieloproliferativa é hereditária?

Não. As mutações que causam as neoplasias mieloproliferativas são adquiridas ao longo da vida, dentro de uma célula da medula óssea, e não são transmitidas aos filhos. Existe uma predisposição familiar discreta descrita em algumas famílias, mas ela não muda a conduta nem indica testar parentes de rotina.

Uma neoplasia mieloproliferativa pode virar outra?

Pode, e isso faz parte da história natural do grupo. A policitemia vera e a trombocitemia essencial podem evoluir para mielofibrose — de 10% a 20% dos casos de mielofibrose começaram assim. Qualquer uma delas pode, mais raramente, transformar-se em leucemia aguda. É a razão de o acompanhamento ser contínuo mesmo com o hemograma controlado.

Preciso tratar se não tenho nenhum sintoma?

Nem sempre. Nas neoplasias mieloproliferativas a decisão de tratar depende da categoria de risco, não da contagem no hemograma. Doença de baixo risco e sem sintomas pode ser acompanhada com consultas e exames regulares. O que nunca deve acontecer é o abandono do seguimento: sem acompanhamento não há como perceber uma mudança de categoria.

Qual médico trata neoplasias mieloproliferativas?

O hematologista. O diagnóstico exige biópsia de medula óssea e pesquisa de mutações, e a decisão de tratar depende de escores de risco específicos de cada doença. Quando há indicação de transplante, entra também a equipe de transplante de medula óssea.


Aviso importante

As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.

Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.

Em caso de dúvidas procure avaliação com seu médico ou um hematologista.


Referências

Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista — CRM-RJ 89269-6. Acompanhe no Instagram: @drhenriquepecegohemato · LinkedIn · X: @henriquepecego.

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