Leucemia mieloide crônica (LMC): o que é, sintomas, diagnóstico e tratamento
Conteúdo escrito e revisado por médico hematologista · Revisado em 10 de agosto de 2026Como este conteúdo é feito
Dr Henrique Nunes Pêcego na frente de um quadro negro

Por Dr. Henrique Pêcego — Médico Hematologista | Instagram: @drhenriquepecegohemato

Leucemia mieloide crônica (LMC) é um câncer do sangue que evolui devagar e está ligado a uma alteração genética muito específica: o cromossomo Philadelphia que corresponde a translocação genética do cromossomo 9 e do cromossomo 22. Ela é, provavelmente, a maior história de sucesso da hematologia moderna. Há poucas décadas, era uma doença grave; hoje, é controlada com comprimidos que a pessoa toma em casa, e a maioria dos pacientes tem expectativa de vida próxima da normal. Nela, a medula óssea produz glóbulos brancos em excesso, de forma lenta e progressiva. Neste guia, você vai entender, de forma simples, o que é a LMC, quais são os sinais de alerta, como ela é diagnosticada e por que o seu tratamento revolucionou a medicina. Ele faz parte do nosso guia completo sobre leucemia.


O que é a leucemia mieloide crônica?

A medula óssea é a fábrica do sangue, onde nascem os glóbulos vermelhos, as plaquetas e os glóbulos brancos. Na LMC, uma célula da linhagem mieloide sofre uma troca entre dois cromossomos: pedaços dos cromossomos 9 e 22 mudam de lugar. Dessa troca surge o cromossomo Philadelphia e um gene anormal, o BCR-ABL, que funciona como um “interruptor travado na posição ligada” e faz a medula produzir glóbulos brancos sem parar.

Diferente das leucemias agudas, a palavra “crônica” indica que a doença evolui devagar, ao longo de meses ou anos. Por isso, muitas pessoas descobrem a LMC por acaso, em um exame de rotina. A doença costuma passar por três fases: a fase crônica (a mais comum no diagnóstico, com poucos blastos e boa resposta ao tratamento), a fase acelerada e a fase blástica (a mais grave, quando se comporta como uma leucemia aguda). Assim, quanto mais cedo o diagnóstico, mais fácil manter a doença na fase inicial.


Sintomas da leucemia mieloide crônica: sinais de alerta

Um ponto importante marca a LMC: muitas vezes ela não dá sintomas no início. De fato, boa parte dos casos é descoberta em um hemograma pedido por outro motivo, que mostra os glóbulos brancos muito altos. Quando os sintomas aparecem, costumam ser discretos. Portanto, vale atenção quando surgirem:

  • Cansaço e fraqueza sem explicação.
  • Perda de peso e falta de apetite.
  • Suores noturnos e, às vezes, febre baixa.
  • Sensação de barriga cheia ou desconforto no lado esquerdo, pelo aumento do baço.
  • Palidez (anemia) ou sangramentos, em fases mais avançadas.
Infográfico com os sinais de alerta da leucemia mieloide crônica (LMC): cansaço, perda de peso e suores noturnos

Esses sinais também aparecem em várias situações benignas. No entanto, um hemograma com glóbulos brancos muito elevados costuma ser o grande alerta que leva ao diagnóstico.


Vale um aviso prático: a leucemia mieloide crônica é uma das doenças da medula que podem se apresentar com plaquetas altas no hemograma, às vezes antes de qualquer sintoma. Por isso uma contagem persistentemente elevada sem causa aparente merece investigação.

Como a leucemia mieloide crônica é diagnosticada

O diagnóstico une exames de sangue a exames genéticos precisos:

  1. Hemograma. Quase sempre é o ponto de partida: mostra glóbulos brancos muito aumentados, com formas jovens e, com frequência, basófilos elevados.
  2. Exame da medula óssea. Avalia a fase da doença e complementa o estudo genético.
  3. Cariótipo (citogenética). Identifica o cromossomo Philadelphia, a marca da LMC. Também pode ser identificado por FISH.
  4. PCR para o BCR-ABL. Detecta o produto da alteração genética com altíssima sensibilidade. Além de confirmar o diagnóstico, é o exame que acompanha a resposta ao tratamento ao longo do tempo.
Infográfico de como a leucemia mieloide crônica (LMC) é diagnosticada: hemograma, cromossomo Philadelphia e PCR BCR-ABL

Confirmar o BCR-ABL é decisivo, porque é justamente esse alvo que os medicamentos atacam.


Tratamento da leucemia mieloide crônica

Aqui está o que torna a LMC especial. O tratamento se baseia nos inibidores de tirosina quinase (TKIs) — comprimidos que bloqueiam exatamente a proteína produzida pelo BCR-ABL. Em outras palavras, é uma terapia-alvo: em vez de atacar todas as células, o remédio mira o “defeito” da leucemia. As principais opções são:

  • Comprimidos de uso diário, como imatinibe, dasatinibe, nilotinibe, bosutinibe, ponatinibe e asciminibe. A escolha depende da fase, do risco e das outras condições de saúde.
  • Monitoramento molecular por PCR (BCR-ABL). Ao longo do tratamento, exames periódicos medem a resposta e mostram se o remédio está funcionando.
  • Remissão livre de tratamento. Em pacientes que atingem uma resposta molecular profunda e mantida por tempo suficiente, é possível, com acompanhamento rigoroso, tentar parar o medicamento — algo impensável no passado.
  • Transplante de medula óssea. Hoje é raro e reservado a casos que não respondem aos TKIs ou em fases avançadas.
Infográfico do tratamento da leucemia mieloide crônica (LMC): inibidores de tirosina quinase e monitoramento por PCR

Com o tratamento certo e o uso correto dos comprimidos, a maioria das pessoas com LMC leva uma vida praticamente normal.


Prognóstico: o que esperar

A LMC é o exemplo mais marcante de como a terapia-alvo transformou o câncer. Segundo as diretrizes atuais, quem entra em remissão e mantém o uso correto do medicamento pode esperar uma expectativa de vida próxima ou igual à normal. O segredo do sucesso é a adesão: tomar o comprimido todos os dias, conforme a prescrição, e fazer o acompanhamento com o PCR. Cada caso é único, e o hematologista é quem define a melhor estratégia e acompanha a resposta.

Quando procurar um hematologista

Como a LMC costuma ser silenciosa, o hemograma tem papel central. Assim, procure avaliação quando houver:

  • um hemograma com glóbulos brancos muito elevados, mesmo sem sintomas;
  • cansaço, perda de peso ou suores noturnos persistentes;
  • sensação de barriga cheia ou desconforto no lado esquerdo (baço aumentado).

Diante de um hemograma bastante alterado, a avaliação de um hematologista é o caminho para o diagnóstico e para começar o tratamento no tempo certo.

Leia também: o guia completo sobre leucemia, a leucemia mieloide aguda (LMA) e a leucemia linfoblástica aguda (LLA).

Conheça também a leucemia linfocítica crônica (LLC), que completa os quatro tipos principais de leucemia.


Perguntas frequentes sobre a LMC

Leucemia mieloide crônica tem cura?

A LMC é altamente controlável. Com os comprimidos-alvo (TKIs), a maioria dos pacientes atinge remissão e tem expectativa de vida próxima da normal. Em alguns casos com resposta profunda e mantida, é possível até tentar parar o medicamento (remissão livre de tratamento), sempre com acompanhamento. Falar em “cura” depende de cada caso, mas o controle a longo prazo é a regra.

A LMC é grave?

Na fase crônica, que é como a maioria é diagnosticada, ela evolui devagar e responde muito bem ao tratamento. O risco maior existe quando avança para as fases acelerada ou blástica — por isso o diagnóstico precoce e o uso correto do medicamento são tão importantes.

Qual a diferença entre LMC e LMA?

As duas partem da linhagem mieloide, mas se comportam de formas opostas. A LMA (aguda) evolui rápido e exige tratamento imediato; a LMC (crônica) evolui devagar e é controlada com comprimidos-alvo por longos períodos.

O que é o cromossomo Philadelphia?

É uma alteração genética típica da LMC: pedaços dos cromossomos 9 e 22 trocam de lugar e formam o gene BCR-ABL, que faz a medula produzir glóbulos brancos em excesso. Esse gene é justamente o alvo dos medicamentos.

Como a LMC é diagnosticada?

O hemograma costuma dar o primeiro sinal (glóbulos brancos muito altos). A confirmação vem da identificação do cromossomo Philadelphia (cariótipo) e do gene BCR-ABL (PCR), que também acompanha a resposta ao tratamento.

Preciso tomar o remédio para sempre?

Na maioria dos casos, o tratamento é contínuo. No entanto, pacientes que atingem uma resposta molecular profunda e mantida por tempo suficiente podem, sob rigoroso acompanhamento, tentar interromper o medicamento. Essa decisão é sempre individual e conduzida pelo hematologista.


Sobre o autor

Dr. Henrique Pêcego é médico hematologista, especialista em Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, com atuação no diagnóstico e tratamento das doenças do sangue em adultos.

Atua nas áreas de anemia, alterações do hemograma, doenças da medula óssea, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e transplante de medula óssea, sempre com abordagem baseada em evidências científicas e atendimento individualizado.

Além da prática clínica, participa de atividades científicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e produção de conteúdo voltado à educação em saúde, com o objetivo de tornar a hematologia mais acessível e compreensível para pacientes e familiares.

CRM-RJ: 5289269-6
RQE: 26589 / 26590

A leucemia mieloide crônica faz parte do grupo das neoplasias mieloproliferativas. A representante mais comum das formas sem o cromossomo Philadelphia é a policitemia vera.


Aviso importante

As informações disponibilizadas neste artigo têm finalidade exclusivamente educativa e não substituem consulta médica, exame físico ou avaliação individualizada por um profissional de saúde.

Cada paciente possui características próprias, e a interpretação de exames laboratoriais deve sempre considerar a história clínica, os sintomas, os medicamentos em uso, os exames anteriores e o contexto de cada pessoa.

Em caso de dúvidas sobre seu hemograma ou qualquer alteração identificada no exame, procure avaliação com seu médico ou um hematologista.


Referências

Conteúdo escrito por Dr. Henrique Pêcego, médico hematologista. Última revisão: agosto;2026 | Acompanhe conteúdos sobre hematologia no Instagram @drhenriquepecegohemato ou saiba mais [sobre o autor] · LinkedIn · X: @henriquepecego.

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